Em princípio, um governo estadual do PDS deveria ser muito diferente de um governo do PDT ou do PMDB. De fato, do ponto de vista ideológico, as diferenças são razoavelmente nítidas. Do ponto de vista da atitude diante do governo federal, também. Mas no dia-a-dia de suas administrações, estes governos muito se assemelham. Ou pelo menos enfrentam problemas muito semelhantes. Todos, ou quase todos, por exemplo, seja no Rio, Recife ou São Paulo, enfrentam a violência urbana crescente, a insúbmissão de suas polícias, e o protesto do funêionalismo público por melhores salários. Enfrentam inclusive o grave problema dos transportos urbanos de massa. Problema crescente na medida em que a qualidade e segurança decai e o preço das passagens aumenta. Em alguns setores do Grande Recife, um trabalhador de salário mínimo, a imensa maioria, é obrigado a gastar cerca de 30 por cento de seus salários somente em passagens.

Na verdade, o que distingue estes governos é menos o discurso ideológico do que as maneiras distintas de enfrentarem os problemas semelhantes. Antes que a insatisfação popular derive para um quebra-quebra incontrolável, por inciativa do vereador Cérlos Eduardo (PMDB), com o apoio do secretário de Transportes, José Múcio Monteiro (PDS), foi criada uma comissão para implantar o horário social no ônibus. Entre 4 e 7 da manhã, e 17 e 20 horas, quando a maioria dos trabalhadores vem e vai para o trabalho, a tarifa seria reduzida em 50 por cento. O que poderia exigir um subsídio do
governo para as empresas privadas que expl-
ram as concessões.

Argumenta, porém, o vereador Carlos Eduardo que bastaria o governo controlar os passes gratuitos, e redefinir os critérios para o cálculo das tarifas (que é tabelada), para este eventual subsídio ser desnecessário. Ou pelo menos muito suportável.

Hoje, soldados das polícias, do Corpo de Bombeiros, oficiais de justiça, delegados de polícia e muitos outros andam sem pagar nos ônibus. Quer dizer, quem paga é o passageiro do lado. Uma seleção mais rigorosa da gratuidade seria necessária. Como também, o preço da tarifa inclui uma remuneração de 12 por cento acima da inflação ao capital das empresas privadas. Ora, o salário do trabalhador, e mesmo do funcionalismo público, não tem este privilégio. São aumentados sem acréscimo de produtividade (o que corresponderia aos juros) e abaixo da inflação. E esta uma questão que não só Pernambuco, mas o Brasil terá que enfrentar. O governo remunera o capital com juros, mas não remunera o trabalho com o acréscimo de produtividade. É como se o capital produzisse e o trabalho não. A medida que a redemocratização avança, é necessário que os critérios anti-sociais que nestes anos todos embasaram o cálculo dos preços dos serviços públicos sejam revistos.

(Joaquim Falcão)

_01/05/1984_