A quase totalidade dos intelectuais de Pernambuco, à frente Gilberto Freyre, Mauro Motta e Leda Alves, lançaram um manifesto aos brasileiros pró-eleições diretas.

“Inquietos com respeito à vida política, social e econômica do País, nos anos futuros, lançamos este manifesto à Nação, pedindo que os políticos de todos os matizes partidários com responsabilidade legislativa no Congresso Nacional — um Congresso que soube ser honrado em época recente pela presidência do pernambucano Nilo Coelho — façam o que estiver a seu alcance para materializar o desejo da quase unanimidade dos brasileiros pela imediata restauração das eleições diretas para presidente da República (…).”

“(…) A população brasileira considera que já concedeu poderes excepcionais por tempo excessivo ao abdicar, em face de razões que soube compreender em momento histórico determinado, do privilégio de escolher seu presidente. Essa população não quer permanecer ignorante acerca do futuro, acerca da opção de futuro que se fará quando for eleito o sucessor do presidente Figueiredo. Ela quer dizer qual o futuro que bem ou mal lhe interessa. Quer dizer isso com a arma legítima do voto, que é sua em última instância, com ou sem Colégio Eleitoral.”

“(…) É um Brasil adulto, alienado contudo da administração do País, dissociado do elxo de comando dos negócios públicos, que não quer
mais apenas sofrer as consequências daquilo que lhe é imposto, quem clama em praça pública pedindo o restabelecimento urgente do processo de eleição direta para presidente da República (…) Quem demanda tal direito não é uma minoria de insatisfeitos, em busca de promoção ou camuflando inconfessáveis propósitos de pertuação da ordem. Trata-se da quase totalidade dos brasileiros — das pessoas que sempre consideraram como dever seu influir diretamente na escolha do primeiro mandatário do País — quem solicita a restauração do modelo de eleição presidencial (…) são os eleitores de todos os naipes que pretendem contribuir para o processo de governo do País através do meio mais legítimo ao seu alcance — o voto (…)”

Assinaram entre outros os pintores José Cláudio, Gilvan Samico, João Câmara, Luciano Pinheiro, Guita Charikfer; os cientistas Bezerra Coutinho, Manuel Correia de Andrade, Clóvis Cavalcanti, Dirceu Pessoa, Silke Weber; os escritores Paulo Cavalcanti, Frederico Pernambucano, Gláucio Veiga, José Mário Rodrigues, Marcus Accioly, Maria do Carmo Tavares de Miranda; os músicos Geraldo Mennucci, Zoca Madureira, Renato Phaelante, E muitos outros. (Joaquim Falcão)

# Poucos conhecem Montoro no Nordeste

##### JOAQUIM FALÇÃO

Do equipo de articulistas do “Folha”

No Nordeste, Franco Montoro como governador é praticamente um desconhecido. Aliás já o era antes, como senador. Continua sendo, o que não é nem privilégio nem falta grave. Os nordestinos desconhecem a imensa maioria de nossos políticos: governadores, senadores, ministros, etc. Se duvidar, ignoram até quem seja o vice-presidente da República, o ministro do Exército e o João Figueiredo. Aliás não é só o nordestino quem desconhece nossos políticos. Os brasileiros em geral, e os paulistas também, caracterizam-se por um baixíssimo nível de informação política. Pesquisas da década de 70 evidenciaram que cerca da metade da população brasileira sequer sabia o nome do presidente do Brasil. Esta situação não deve ter mudado muito. Pesquisas de 1982, por exemplo, indicam que o eleitor brasileiro, paulista-ta, inclusive, ignora em sua imensão maioria o que seja abertura política ou Constituinte. Aliás, seu nível de informação política é proporcional ao nível de instrução universitária. Donde, o desconhecimento e a desinformação são gerais.

Quem conhece mesmo Franco Montoro e seu governo são as elites políticas, empresariais, trabalhadoras, a imprensa e alguns poucos setores das classes médias urbanas de Salvador, Recife, Fortaleza, João Pessoa, Aracaju, Maceió e Natal. Estes, diante do governo Montoro, parecem comungar de um núcleo comum de impressões não sistematizadas. Trata-se de um governo sem corrupção e que não usa de violência. Um governo politicamente não repressivo, como aliás tendem a ser hoje todos os governos. Da situação e oposição, Montoro, Tancredo, Magalhães, Brizola, Gonzaga Motta, estão todos atentos na campanha anticorrupção. No plano administrativo as informações que chegam aqui são discretas. Como parece ser a própria administração Montoro. Sem sabódomos, nem paulípetros.

A grande questão que fica no ar, sobretudo entre as elites políticas, é a tradicional incapacidade de São Paulo transformar seu poderio econômico em poderio político. Neste sentido Montoro ainda não ocupou, se é que vai, uma liderança política nacional correspondente ao peso econômico de São Paulo. De resto, os nordestinos sempre que pensam nos líderes paulistas nacionais, Maluf e Delfim, pensam também em Antônio Ermírio e Olavo Setúbal. Talvez como antídotos. O espaço político nacional ainda não foi ocupado pelo governador de São Paulo. Nem como articulador de consenso, nem como líder dos governadores de oposição ao governo federal. Ulysses Guimarães ainda é o paulista da oposição mais nacionalmente presente.

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_11/03/1984_