Em eleições direitas, o grande eleitor é o povo brasileiro. Já nas eleições indiretas, eleitores são os membros das convenções partidárias e do Colégio Eleitoral. Mas os grandes eleitores são os poucos privilegiados com poder de influenciar os votos dos convencionais em favor deste ou daquele candidato. Por isto mesmo, dentro da surdina política, o ministro Delfim Neto é um dos grandes eleitores do PDS. Talvez o maior. Seu poder de fogo, poder de influenciar candidaturas e votos, é enorme. Basta ver que até agora, nenhum dos presidenciáveis do PDS ousou discutir a política econômica, mesmo na campanha indireta de corredores, ante-salas e espasmódicos pronunciamentos na televisão. Mais cedo ou mais tarde porém terão que falar sobre política econômica. Provavelmente então falarão apenas da política econômica do futuro. Dificilmente se posicionarão diante da política delfiniana e de suas consequências para a Nação. Guardarão silêncio, docemente constrangidos.
O ultimo presidenciável que tentou, foi fulminado: Hélio Beltrão, Hoje, as razões de sua demissão são cada dia mais claras. O próprio presidente da República escreveu-lhe carta pessoal afirmando que em 83 só dispunha de Cr$100 bilhões para resolver o difícil da Previdência. Mas ainda em 83, em poucos dias, Passarinho obtém Cr$ 200 bilhões na Seplan. Donde, das três, uma. Ou a carta do Presidente não foi respeitada pela Seplan. Ou os dados
fornecidos ao Presidente eram imprevidentes. Ou tudo não passou de pretexto político para dificultar uma candidatura que contestava cada vez mais a política delfiniana.
Informações disponíveis indicam que a Seplân se inclinaría ou por Maluf ou Andreazza. Por enquanto, SIntomaticamente, em Nova York, Maluf elogiou a maneira como a Seplân negocia a dívida externa. É verdade que, lá na neve, somos todos brasileiros. Maluf e Delfim inclusive. Mas aqui dentro, as opiniões podem ser divergentes. Mas até agora, Maluf não tem posição pública clara sobre a política delfiniana. Se a tem, não a explicita. Por sua vez, a Eletrobrás tem enfrentado crescentes dificuldades junto à Seplân em relação a recursos para este ano. Independentemente do aperto geral do setor público, há quem veja nestas dificuldades suave pressão para Costa Cavalcanti abandonar desejo privado de ser presidenciável alternativo, e no lado de César Cals, embarcar na canoa de Andreazza ou da receição de Figueiredo. Como gostaria a Seplân, Na medida em que o processo eleitoral avança, a Seplân terá que se delfinir. Sait da surdina, Fortaleccer ou enfraquecer candidaturas. Lutar diretamente por votos. Não é por menos que o acordo PDS-PTB necessita da bênção dos quartéis, e da Seplân também…(Joaquim Falcão)
# São Francisco: cuidado!
Continuam, silenciosamente, no Ministério do Interior, os estudos para se desviar o curso das águas do rio São Francisco. Isto mesmo; em vez do São Francisco seguir o caminho que Deus lhe deu, o governo pretende à altura de Sobradinho desviar boa parte de suas águas. Encaminhá-las para o sertão do Ceará, Rio Grande do Norte e Paralba, Construindo cerca de mil quilômetros de canals, dezenas de estações elevatórias e barragens. Vencendo montanhas, atravessando vales. Pegando aqui e ali carona no leito de outros rios. Tudo em nome de vencer definitivamente o flagelo da seca.
Os leitores paulistas e cariocas têm todo o direito de ficar pasmos. Incrédulos. Preocupados mesmo. Os nordestinos também estão. Pois um projeto farônico como este comporta pelo menos duas indagações. A primeira é simples: onde um Brasil falido, com um setor público estrangulado, estatais contidas, banqueiros estrangeiros de ressaca, vai arranjar recursos para tanto? E se arranjar, quem os paga de volta? A segunda é mais técnica: será esta a solução adequada? Por exemplo, O policial de irrigação do São Francisco, neste leito que Deus lhe deu, é de cerca de um milhão de hectares irrigáveis. Até agora, o Ministério do Interior só aproveitou 4% deste policial, cerca de 40.000 hectares. Não seria mais sensato e barato utilizar este potencial, em vez de criar outros artificialmente? Irrigar aqui e hoje. Em vez de acolar e amanhã? Em princípio o projeto utilizaria o excedente energético do rio. Mas será que já existem estudos que concedam a esta hipótese um mínimo de realidade? A energia suficiente e ainda barata que o São Francisco fornece, não corre o risco de ser afetada?
Um dos argumentos contra as eleições diretas é que elas sacrificam o Tesouro Nacional. São muito caras, O País não teria dólares e cruzeiros para tanta democracia. Mas eleições indiretas podem ser mais caras ainda. Quem garante que o ministro presidenciável Andreazza não sofra pressões para desvilar billionariamente o São Francisco e capitalizar esta decisão em votos de convencionais? Não custa lembrar os desastres da Transamazônica, da Ferrovia do Aço, da Perimetral Norte. Onde o País enterrou improdutivamente bilhões de dólares. Todas as decisões tomadas sem participação pública. Um projeto como este só deveria ser aprovado pelo Congresso. E pela Assembléia de cada Estado interessado. Aliás, os próprios estudos preliminares, que são caríssimos, só deveriam ser iniciados depois de publicamente comprovada uma viabilidade mínima.
(Joaquim Falcão)
_15/01/1984_