especial para a Folha
Antes de João Paulo 28, o papa não saía de Roma. Andava carregado no andor. Não viajava. Só falava italiano e latim. Se comunicava com os fiéis através de bênçãos, encíclicas e missa do galo. Eleito, João Paulo 28, tudo mudou. Logo na primeira viagem, jogou-se escada abaixo do avião e beijou o solo da República Dominicana. Aquela imagem —um papa beijando o chão — explodiu nos jornais e TVs do mundo inteiro. Roma finalmente entrava na era da comunicação. Estava atrasada. Há mais de 30 anos, no Brasil, dom Helder já descobrira que sem comunicação não haveria religião. Nem fiéis, bispos ou igreja.
Muitos acreditam que a importância de dom Helder estava em sua mensagem: uma messiânica teologia da libertação, litúrgica e pastoral, eterna e temporal, alimentadora, ao mesmo tempo, do corpo e alma. O que é verdade, em parte. A verdade inteira, porém, é que dom Helder uniu esta mensagem à sua enorme capacidade de comunicação de massa, com os fiéis, sua audiência. Desta união nasceu sua importância e poder.
Querem prova? Basta uma. Durante anos, o regime militar proibiu uma linha nos jornais, uma imagem de televisão sobre dom Helder. Censura total. Silêncio absoluto. Ora, só se censura quem além de mensagem, tem o dom de comunicá-la. E ao comunicar, conquista, convence e seduz. A comunicação enquanto categuesse. Dom Helder tinha este poder e precisava dos meios de comunicação para exercer-lo. Por isto, aproximou-se no início de “O Cruzeiro”, dos “Diários Associados”. Depois de Roberto Marinho, E, por fim, da imprensa internacional, seduzida por sua opção pelos pobres e pelos direitos humanos.
Dom Helder era gesto e imagem. Mesmo sua voz era visual. Argumentava com o corpo, falava com os únios, griíava com as mãos. O leitor está agora, provavelmente, recordando-se muito mais da imagem, do que das palavras de dom Helder. Enquanto meio, ele foi a mensagem do amor e a denúncia da injustiça. Assim foi líder. Na festa de seus 85 anos, com as pernas feridas pela erisipela, depois de duas horas em pé, o deputado Pedro Eurico lhe ofereceu uma cadeira. Recusada no ato, era recusa, afastou a imagem do líder abatido e da mensagem envelhecida.
Acrescam agora à mensagem messidânica e a arte de seduzir multidões, uma incansável capacidade de mobilizar e organizar. Foi um criador de instituições. Criou a inocente feira da Providência, a poderosa CNBB e a militante Comissão de Justiça e Paz do Recife. Por onde andou, comunicou, convenceu, seduziu, mobilizou e organizou. Transformou ideal, em ação. Esperança, em possibilidade. Solidão, em união. Fé, em poder.
Por isto, os poderosos —da igreja e do Estado— lhe respeitavam e ao mesmo tempo temiam e procuravam neutralizá-lo. Roma não teve a intenção, nem a coragem de, por justiça, fazê-lo cardeal. Mas o Brasil o fez. Cardeal de fato, do povo, sem anel. Detendo diante dos padres, bispos e cardeais, e por que não do próprio papa, a representação legítima dos fiéis, a palavra referência, a importância maior.
Com dom Helder, sua teologia pastoral, sua arte da sedução coletiva e sua obstinação por organizar, nossa Igreja Católica sobreviveu ao século 20.
(Joaquim Falcão)
_28/08/1999_