Dois fatores e duas boas razões tornam oportuna a discussão sobre a cria-
ção de um ministerio que congregue e integre turismo e cultura.

O primeiro é óbvio: eleições presidenciais e um novo governo —Fernando Henrique, em segundo mandato, ou Lula. É tempo de avaliar a estrutura administrativa do governo federal, tornando-a mais eficiente e moderna. O segundo fator: qualquer que seja o novo governo, criar empregos e gerar divisas sera (já é) vital.

No mundo, a solução para a oferta de novos empregos não vem das indústrias. Vem do comércio, dos serviços e do terceiro setor. Criar um emprego na indústria é cerca de quatro vezes mais caro do que nos serviços. Por isso, cultura e turismo, ao lado de comunicação e educação, serão os principais geradores de empregos, como áreas de maior crescimento internacional.

As duas razões para criar o ministério são mais específicas. A primeira diz respeito à prioridade político-administrativa. Atualmente, turismo faz parte do Ministério da Indústria e do Comércio. Há décadas o “trade” turismo tenta, sem sucesso, que o governo federal dê ao setor a prioridade econômica que ele já tem no resto do mundo, inclusive como gerador de divisas. Não consegue. Os resultados são insatisfatórios.

Países como os do Caribe, Portugal, Espanha e México têm no turismo uma vital fonte de divisas. Nossa balança turística ainda é deficitaria. Brasileiros viajam mais e gastam mais lá fora do que os estrangeiros aqui. Ate Cuba ten-ta equilibrar suas contas internacionais por meio da abertura turística.

No Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo, as prioridades ainda serão, por muitos anos, o desenvolvimento industrial, a indústria automobilística e a exportação. É nossa experiência; contra fatos não há argumentos. Vai ser difícil mudar. O presidente afirma que o turismo não é atividade economicamente secundária. Mas a equipe econômica, agora mesmo, para conseguir as preciosas divisas, criou novo projeto apoiando 55 (!) areas de exportação. Nada de

A segunda razão diz respeito às transformações na área cultural. O Banco Mundial começa a investir em cultura. Seu presidente, James Wolfensohn, afirma
que a contrapartida necessária para a globalização econômica é o fortalecimento das culturas locais.
que geram milhares de dolares de receita para seus municípios. O pagode, o forro, a musica sertaneia, a axe music, o frevo e o samba-enredo derrotaram o rock e seus seguidores nas radios e no mercado fonografico brasileiro. Nossa cultura é cada dia mais competitiva. Os exemplos são inumeros.

O país só teria a ganhar
se o espírito empresarial
do turismo, voltado para
o mercado, dialogasse
com a área cultural

Evidentemente, nem todo turismo e cultural. Nem toda atividade cultural e atração turística. Ha convergências, mas sem exclusivismos. Especificidades devem ser respeitadas.

O país so teria a ganhar se o espírito empresarial que marca o turismo, volta-

• O Banco Interamericano de Desenvolvimento finance no oso Ministério da Cultura num projeto de patrimônio cultural economicamente sustentável. Projetos como os de Salvador (Pelourinho) e Recife exemplificam o potencial econômico dos centros históricos.

Megafestas populares, como a Oktoberfest, São João, o Carnaval no Rio, em Salvador e em Olinda e o Cirio de Nazaré, são investimentos lucrativos,
do para o mercado, dialogasse com a area cultural e a influencia. A cultura é ainda muito voltada para o sub-
sídio —indispensavel, porém limitavel. E o nosso patrimônio histórico
poderia livrar-se do
turismo predatorio, fortalecendo-se com novos defensores: turistas brasileiros e estrangeiros.

Políticas comuns integradoras, projetos exemplares, apoio tecnológico e gerencial —eis aí o novo Ministerio de Cultura e Turismo, voltado para criar empregos, gerar divisas e fortalecer nossa cultura. Aiudando a internacionalizar sem desnacionalizar e a globalizar sem depender.

(Joaquim Falcão)

_24/09/1998_