JOAQUIM FALÇÃO
Primeiro foi Peter Calamai no colóquio “A Mídia-Internacional e a Alfabetização” em maio de 1989 na cidade de Paris. Seu jornal, o maior do Canadá, “Southam News”, descobriu em pesquisa recente que lá ainda existem 5 milhões de pessoas que não sabem ler, escrever e lidar com números, suficientemente. Em seguida, Jim Duffy, o presidente de Comunicação da Rede ABC-TV dos Estados Unidos, mostrou a campanha que estão colocando no ar, tentando mobilizar em direção à sala de aula 23 milhões de norte-americanos ainda analfabetos. Surpresa maior, porém, foi com o prof. A. Anissenko, do Conselho de Rádio e Televisão Soviéticos: “Nosso país eliminou o analfabetismo há 40 anos atrás… Mas, graças a ‘perestroika’, constatamos hoje analfabetos em várias regiões soviéticas…” E passou a enumerar as regiões e o papel da televisão soviética no combate ao analfabetismo.
A alfabetização popular, em moda nos anos 60, esquecida nos anos 80, volta à cena nos anos 90. A ONU declarou 1990 o Ano da alfabetização. A Unesco estima em mais de 100 milhões as crianças sem escola no mundo. Sem falar nos adultos analfabetos: outros tantos milhões. Donde, para Federico Mayor, diretor-geral da Unesco, e que organiza o Ano da alfabetização: “A alfabetização é de 100 milhões”
Mas deixou de ser, como nos 60, prioridade apenas para os governos. É prioridade da nação como um todo. Refletindo esta nova postura, a grande mídia internacional começa a desenvolver projetos próprios. Como a ABC e o “Southam News”, o “Washington Post” também tem um projeto seu: comunitário de alfabetização. E o “Yomiuri Shimbun”, o maior jornal japonês (tiragem diária de mais de 9,5 milhões de exemplares) lidera uma campanha para levantar junto a seus leitores cerca de 30 milhões de dólares, para aplicá-los na alfabetização da Ásia.
A presença da mídia na alfabetização justifica-se. Primeiro, porque a mídia quer aumentar seu mercado consumidor. Afinal, a imprensa vive de quem sabe ler. E o analfabeto funcional —o novo analfabeto— sabe ler e escrever. Mas não sabe usar o ler e escrever para ler jornal, extrato bancário, catálogo de telefone, escrever cartas, fazer petições aos governos etc… É alfabetizado formalmente, mas analfabeto funcionalmente. Segundo, porque a televisão mudou o conceito do analfabeto. Ontem, ser desinformado e analfabeto eram quase sinônimos. Hoje não mais. A televisão informa mesmo os —velhos analfabetos— que não sabem ler nem escrever. E, enquanto informados, decidem. Votam, por exemplo, em eleição presidencial.
Finalmente, a presença da mídia justifica-se porque não se combate mais analfabetismo, sobretudo em países de grandes território e população, sem mobilização popular. E inexiste mobilização popular sem os meios de comunicação.
O Brasil deve a Paulo Freyre a primeira conexão entre alfabetização e mobilização popular. Experimentou depois o Mobral e a Fundação Educar. Construiu salas de aulas para a quase totalidade das suas crianças. Mas ainda enfrenta problemas sérios: milhões adultos analfabetos, e a fome, a falta de transporte, a marginalidade urbana e a necessidade de trabalhar que retiram as crianças das escolas. Para não mencionarmos a evasão escolar, o salário e a formação insuficiente das professoras, e a didática inadequada.
Eis aí um bom tema para a campanha presidencial. Seja por razões políticas — a construção da cidadania democrática. Seja por razões econômicas — a necessidade de aumentar a produtividade nacional. Como o Brasil vai se mobilizar e enfrentar, nos anos 90, os velhos e novos analfabetos?
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_09/06/1989_