JOAQUIM FALÇÃO

Da equipe de articulistas

Há anos o brasileiro sabe que Brizola é candidato a presidente. Que Montoro era, poucos sabiam. Agora o povo começa a saber. E quem lançou Montoro para presidente foi Brizola. Dando-lhe o status de concorrente. Pois para o jogo do poder o debate vale menos pelo que disseram. Importa é por que debateram e como debateram. Neste sentido o ganho de Montoro foi mais explícito.

Mas é evidente que a maneira de Brizola se apresentar é politicamente poderosa. Considere-se o tom da voz, os gestos e a argumentação. Brizola se situa como se estivesse na casa do telespectador. Sentado na poltrona em frente. Cara a cara, igualmente. Dá exemplos, ri, conta piadas, é cínico e sincero. Sério e mordaz. De tão à vontade quase tira os sapatos e pede um cafezinho. Já Montoro se coloca no palanque, na catédras da tribuna. Seu tom de voz é alto. Sua gesticulação magnânima. Seu argumento corre, sincopa de cima para baixo.

Mais ainda. Conte-se quantas vezes disseram a palavra povo. Enquanto Brizola diz povo, Montoro diz sociedade civil. Brizola defende o presidencialismo para não trair o povo. Montoro, o parlamentarismo porque é mais moderno. Montoro cita Rui Barbosa, Brizola, mesmo citando Plutarco — “a maior injustiça é ser injusto e parecer justo”—, parece citar o povo. Em suma, Brizola se comunica com o povo e Montoro com a sociedade civil. Miguel Arraes também prefere o povo à sociedade civil.

A maneira de argumentar de Brizola é também politicamente poderosa. Para começar, num passe de mágica, identifica seus interesses com os do povo. Não é o temperamento de Brizola que quer o presidencialismo forte. É o povo. Não é Brizola que quer eleições agora. É o povo. Estabelecida esta identificação, o resto é detalhe.

Em seguida, Brizola argumenta atacando. Já Montoro argumenta explicando. Mesmo quando eficaz mente levantou o passado parla

Sem mandato, Brizola e Montoro escolheram o debate para influenciar as decisões sobre eleições e regimes políticos. Montoro mostrou que sua candidatura é para valer Brizola foi mais sutil. Os cincoanistas aterrorizam Ulysses Guimarães e os militares argumentando que eleições agora é Brizola na Presidência. Os parlamentaristas aterrorizam os presidencialistas com o fantasma de Brizola caudilho eleito. Nesta semana decisiva Brizola não vale pelo que foi. Nem pelo que é. Mas pelo que poderá ser. Será?

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_13/03/1988_