Lee Iacocca é o empresário mais bem sucedido dos Estados Unidos. É o símbolo do executivo de sucesso. Aparentemente nada tem a ver com o Brasil. Mas tem. O sucesso de Iacocca deve-se ao seu desempenho à frente da Ford, e sobretudo ao fato de ter salvado uma das dez maiores empresas norte-americanas da bancarrota: a Chrysler. A terceira empresa de automóveis dos EUA, gerando milhares de empregos, sustentando milhares de famílias. Como o Brasil, a Chrysler estava altamente endividada. Como o Brasil, tinha futuro, tinha mercado, mas não tinha caixa. Tinha dívidas. O depoimento de Iacocca sobre os banqueiros de lá pode ser muito útil aos brasileiros. Pois a Chrysler o Brasil devem aos mesmos banqueiros.
Quando o governo norte-americano, os empregados, os administradores e acionistas da Chrysler decidiram apertar o cinto e correr o risco de um programa de recuperação da Chrysler, só os banqueiros hesitaram. Tentaram recuar. Por motivo simples. Banqueiro americano não quer correr o risco. Mas que capitalismo é este, pergunta lacocca, onde não se quer correr risco?
Lucros sem risco não é capitalismo. É outra coisa. Os banqueiros credores do Brasil agiram e agem assim também. Emprestaram algumas vezes mal, mas transferiram o risco da decisão errada para o governo brasileiro. E os juros para eles.
Quando uma empresa industrial e comercial de lá necessita de recursos públicos, dinheiro do governo, é uma selva. Quase impossível. Só com autorização do Congresso, o governo Central emprestou dinheiro público à Chrysler. Mas quando os bancos de lá estão sem caixa, o Federal Reserve, o Banco Central deles, tira o, cheque e paga sem consultar ninguém. Simplesmente. Tal como aqui, só quem tem acesso livre, privilegiado e imediato aos recursos públicos são os bancos. Automaticamente. Industriais, agricultores, comerciantes e trabalhadores, não. Que capitalismo é este? pergunta outra vez, Iacocca, E conclui. E um capitalismo de dois pesos e duas medidas. O que é totalmente injusto. Lá, E aqui, também
(Joaquim Falcão)
_11/08/1985_