A história se repete. Recentemente, Edvanda Vitório de 36 anos foi realizar operação de rins, em hospital público do Recife; o Hospital Getúlio Vargas. Cinco dias depois estava na UTI, Descerebrada devido a acidente anestésico. Seu marido, Narciso Vitório, até hoje não conseguiu explicação oficial por parte da direção do hospital. A história se repete: respostas evasivas, segredos, corredores, medidas burocráticas provavelmente inócuas. Um ritual que dificilmente assegurará à família de Edvanda a apuração idônea, imediata e eficaz dos fatos e das responsabilidades. Não é este um caso isolado. Acidentes anestésicos acoplados a inquéritos burocráticos ineficazes e à impunidade assegurada, vez por outra ocorrem em hospitais públicos do Recife.
E evidente que nenhum médico leva o paciente a ficar descerebrado propositadamente. Foi acidente. É evidente também que as precárias condições de funcionamento dos hospitais públicos, a insuficiente remuneração dos médicos e a deficiente qualificação do corpo técnico propiciam este tipo de acidente. Mas é evidente também que os acidentes podem resultar de imperícia, negligência e imprudência. É evidente também que existe um círculo perversamente vicioso entre a frequência destes acidentes e a impunidade decorrente para os responsáveis.
Este círculo vicioso só começará a ser quebrado quando duas novas atitudes, mais consentâneas com a democracia, sejam adotadas. A primeira permitirá um amplo e imediato acesso da família, da população e da imprensa às informações sobre o acidente. Um hospital público, como qualquer repartição pública, deve pautar suas relações com os cidadãos pela publicidade e não pelo segredo. O autoritarismo é que vive do segredo, da censura, dos comunicados oficiais. Uma administração democrática, não. O direito à informação sobre o que se passa na administração pública é um direito da cidadania democrática. A segunda exigirá determinação da comunidade médica para apurar o que ocorreu. Não raramente, nestes momentos, os médicos se fecham em copas, protegem o colega e fazem a defesa corporativa dos médicos. Aliás, não se constrói democracia com defesas corporativas. Eleições sozinhas não fazem democracia. Uma nova atitude da administração pública, no caso os hospitais, e da sociedade civil, no caso os médicos, também são necessárias
(Joaquim Falcão)
_Recife, 01/08/1985_