Três fatos recentes, aparentemente isolados, sugerem que o próprio “establishment” financeiro norte-americano acredita cada vez menos, na capacidade do Terceiro Mundo pagar sua dívida externa. Pelo menos dentro das atuais regras do jogo. O fato mais importante foi o artigo de Henry Kissinger defendendo novos critérios para renegociação. Kissinger tem hoje um escritório de consultoria. Tudo que faz, pensa, fala e escreve é pago. Muito regiamente pago. Dificilmente faria tal proposta por puro prazer intelectual. Traía-se de trabalho de um profissional. Seus principais clientes pertencem ao grande empresariado internacional.
No fundo, a proposta Kissinger se insere na pressão dos bancos credores privados sobre o governo Reagan. Pretendem obrigá-lo a mudar a posição. Até agora Reagan tem se mostrado capitalisticamente insensível às dificuldades dos bancos credores. Muitos com elevado risco. Estes banqueiros ficariam docemente aliviados se as instituições governamentais norte-americanas lhes
ajudassem. Em outras palavras, gostariam de “socializar”, com o eleitor norte-americano, os riscos dos empréstimos íeitos. Reagan se nega.
Os dois outros fatos completam o cenário. Por um lado o Brasil contratou o advogado de Washington, William Rogers para assessorá-lo na negociação. Rogers é muito ligado a Kissinger. Por outro, no Federal Reserve, o Banco Central de lá, começam a surgir vozes divergentes. Defendendo novos critérios de renegociação.
Se estes fatos se confirmam e se ampliam, está na hora do governo José Sarney rever também sua estratégia de renegociação. Torná-la mais política. O momento é oportuno. Paradoxalmente começam a convergir os interesses dos bancos credores e dos países devedores para que os governos dos países credores colaborem na revisão das regras do jogo
(Joaquim Falcão)
_04/07/1985_