Mais de seiscentos e cinquenta anos se passaram e a Igreja católica corre o risco de permanecer a mesma. Aliás, a Igreja não. À burocracia do Vaticano. Em 1327, o superior geral dos franciscanos foi chamado a Roma para se defender diante do Papa João 22, de acusações de heresias. Naquela época, fazer voto de pobreza era ser herético. Esta situação romanceada, de fundo real, está descrita no best-seller “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. E com incrível semelhança é revivida em 1985 entre o francisco Leonardo Boff e o papa João Paulo 2.º. Com um agravante amargo: o francisco brasileiro foi punido com a pena do silêncio (não pode mais dar aula, escrever, fazer conferências etc…) por ter defendido a opção pelos pobres.

Á imensa maioria dos católicos pernambucamos está chocada. Acreditavam que a Inquisição policialesca fosse privilégio da Idade Média. Parece não ser. Desde já três manifestos circulam entre católicos e não católicos estranhando a atitude da burocracia do Vaticano. Um sentimento de indignação coletiva cresce. Provocado pela constatação de que inquisição e ambiguidade caminham juntas. O Vaticano não condena explicitamente a Teologia da Libertação. Nem seus principais líderes. Mas intimida seus seguidores. Pior ainda, intimida-se e não
oferece resposta clara à grande questão colocada pela Teologia da Libertação: como transmitir a mensagem da fé no contexto quase sempre de miséria e opressão do Terceiro Mundo? A condenação indireta da politização embutida na Teologia da Libertação não resiste a comparação com a situação da Polônia. Lá, o Vaticano consegue e com o apoio de todos, expandir a mensagem católica e progredir em direção à democracia. O inverso do que fará aqui.

É de se esperar que o papa João Paulo 2.º reverta este surto de autoritarismo e inquisição. Da burocracia romana que, envelopado em ambiguidades afligé aos fiéis. A esperança que os brasileiros esperam ter no Papa faz com que a situação será revertida. Acreditam os líderes católicos de Pernambuco.

De resto seria bom que a burocracia do Vaticano avaliasse um outro exemplo. A última vez em que as autoridades italianas tentaram impedir um cérebro de funcionar. No caso do procurador de Mussolini ao mandar Antonio Gramsci para a cadeia, não deu certo.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 16/05/1985_