Não há dúvidas. A partir desta semana o Pais será diferente politicamente. Foi uma semana histórica para o Congresso Nacional. A base do poder será, cada vez mais, o voto, Agora para a Presidência da República também. O voto se ampliou em direção ao Brasil real e incorporou, como cidadãos, cerca de 16 milhões de novos eleitores: os analfabetos. Um contingente suficiente para redefinir a estratégia dos candidatos e seus compromisso políticos, seja em São Paulo ou no Recife. Nesta semana o Congresso recuperou sua capacidade de decidir. Só tem poder quem tem capacidade de dicidir. O deputado Miguel Arraes (PMDB-PE) anota que o importante não é apenas a capacidade de decidir, mas decidir de acordo com o sentimento popular. Nesta semana, muitos parlamentares abriram mão de seus interesses particulares, submeteram-se à pressão popular. Muitos votaram a contragosto, mas a favor do gosto dos eleitores.

Neste contexto a emenda Cardoso Alves destoa, por dois motivos. O primeiro, por ter sido construída na calada da noite. O deputado tinha todo o direito de propô-la, mas não em surdina. Tivesse discutido antes com seus colegas, com a
sociedade, debatido na imprensa, nada se teria a opor a este seu direito legítimo. Direito que perdeu, menos pelo conteúdo da proposta e mais pelo modo soturno de apresentá-la. A Nação não quer mais segredos: nem no Executivo nem no Legislativo.

O deputado João Faustino (PFL-RGN), que votou contra a emenda, alerta e com razão que, de uma forma ou de outra, ela explicita o clima de tensão que existe hoje entre os parlamentares, os governadores e os futuros candidatos bem situados nas máquinas administrativas. E um aspecto importante e que aponta para um problema real: o abuso no uso dos recursos públicos na campanha, uma probabilidade real. O remédio não é porém a cassação branca dos mandatos dos governadores, ministros e secretários. O remédio está em aperfeiçoar o controle sobre o Executivo, que hoje em dia ainda goza do cheque em branco que lhe deu o autoritarismo, para sacar contra a liberdade do eleitor e a pretensão do candidato sem recursos.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 12/05/1985_