Existiu um desempenho de Tancredo Neves que ficará inscrito na história da moderna política brasileira. O desempenho que permitiu a milhões de brasileiros constatar que estavam diante não apenas de novo líder. Mas de algo muito mais amplo: de um novo estilo de liderança. Quem pretender ser líder nacional, ou candidato a estadista, forçosamente terá como parâmetro este desempenho. Foi quando de sua primeira entrevista coletiva, depois de eleito, no Congresso Nacional. Entrevista televisionada para todo o País. Tancredo respondendo por quase duas horas dezenas de perguntas de jornalistas nacionais e estrangeiros. É óbvio. Dificilmente alguém terá concordado com todas as suas respostas. O que é secundário. É provável que exista até quem tenha discordado de todas. O que é secundário também. Porque independentemente das respostas, o País — trabalhador e o empresário, o militar e o civil — reconheceu em Tancredo as qualidades do líder que há muito buscava: a coragem política, a competência intelectual e a autoridade democrática.

A coragem política só se evidencia quando há liberdade, quando existe igual liberdade para quem pergunta e para quem responde. A entrevista foi cercada de ampla liberdade e publicidade. Nem houve perguntas, nem respostas prévias. Tancredo Neves entrou de peito aberto, submeteu-se a duras questões, embarcosas, muitas delas, todas respondidas com
desassombro. Lembro particularmente a pergunta sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos. Respondida com vigor, independência e crítica à posição econômica norte-americana.

Esta coragem política fundamenta-se é claro na consciência de sua competência intelectual. O País necessita de líderes que proponham soluções para problemas que são importantes para o povo, e não para os problemas que estão no círculo restrito do poder. Abrangência intelectual é hoje condição indispensável da liderança nacional. Ser intelectualmente competente em apenas alguns problemas nacionalais é ser meio líder. Tancredo não hesitou diante de questões de economia, segurança nacional, direito, relações internacionais, e daí por diante.

O resultado foi que sua autoridade não surgiu dos relatórios secretos, dos pronunciamentos planejados, ou das estratégias precalculadas. Surgiu do livre diálogo democrático, exercitado não nas ante-salas, ou plenários formais, mas no vídeo de cada casa. Surgiu da evidência de sua competência intelectual de cidadão apto a exercer a Presidência da República. O destino não permitiu que Tancredo fosse presidente, mas lhe permitiu ser, definitivamente, estadista nacional.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 25/04/1985_