Quem cosinhas, sabe. Quando se vai fazer um doce, de laranja ou de banana, por exemplo, existem um momento crucial. O momento do ponto doce. Enquanto não se chega a ele, o doce está ralo e aguado, mas quando se passa dele, o doce açucara, não presta. A arte é encontrá-lo. O que não se consegue, sem muita prática e experiência. A democracia é assim também. Existe sempre um momento crucial para que cada um exerça seu direito, respeitando o direito dos outros, sem exercer demais, ou de menos. Sem se submeter, mas também sem levar vantagem. Sem que haja insuficiência ou excesso. É o ponto do doce.
Cresce no País a sensação de que alguns parlamentares estão passando o ponto do doce. Estão exagerando. Em nome de um direito democrático, estão na verdade colbindo a administração pública e frustrando seus eleito-res. É salutar que a composição do Ministério refilta o conjunto de forças que detêm a maioria no Legislativo. Facilita as boas relações entre o Executivo e o Legislativo. É até razoável que a composição política se estenda mais além, e atinja a escolha dos presidentes dos órgãos do segundo escalão. Agora, passa-se rapidamente do risoável ao insuportável quando parlamentares avocam a si a obsessão de indicar do ministro ao ascensorista. Em nome da margina-
lização a que foram submetidos nos anos de autoritarismo, disputam do terceiro ao décimo-
oitavo escalão.
Nem os parlamentares são as únicas forças políticas da Nação, nem o Executivo deve se transformar no departamento de pessoal do Legislativo. Assim como o País iutou para que o Legislativo não fosse o quintal do Executivo. Cada ação autoritária não deve provocar reação autoritária igual e contrária. Deve provocar ação democrática e contrária, sobretudo porque nenhum eleitor vai se sentir melhor representado por saber que o diretor do hospital tal é sobrinho do deputado federal qual.
Há que se ter limites. Presidentes de empresas estatais estão sendo obrigados a dirigir-las com desconhecidos potencialmente conflitantes. A disputa de cargos paralisou a administração pública. Não interessa a ninguém, nem aos parlamentares, que estas disputas entravam à nascente democracia. Vamos conservar o princípio da composição política do Ministério. Vamos observar a influência dos parlamentares, mas não vamos passar do ponto do doce.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_Recife, 21/04/1985_