Está sendo inaugurado no Recife um metrô de superfície com tecnologia a mais avançada. No mesmo momento, o sistema regional Nordeste da Rede Ferroviária Federal está recebendo instruções para erradicar mais de 10% dos ramais em funcionamento. Desativar a ferrovia de Salgueiro, o ramal de Barreiros, de Crato, Mossoró-Souza e outros. Argumenta a direção central da RFF tratar-se de ramais deficitários, que não mais podem ser subsidiados. Aí está o paradoxo: no momento em que se pretende retirar o subaldio de um, inaugura-se o de outro. Como o metrô do Rio e São Paulo, o de Recife será fartamente subsidiado.

Na verdade, técnicos e usuários dos diversos sistemas de transportes ainda não conseguiram entender a lógica da política de subdiários do governo federal. O metrô, por exemplo, atuará com sistema integrado com ótimos de pequenas e médicas concessionárias. O metrô será subdirido. Os pequenos e médicos empresários, não. A linha do metrô Recife-Jabotão custou 435 milhões de dólares. Vai concorrer com a linha RFF Cabo-Recife, cuja modernização custou apenas 5 milhões. Quem concorre também com as ferrovias são as rodóvias, que tem suas despesas subdiadas pelo Imposto Únicão sobre Combustíveis, taxa rodoviária e pedágio: Ou seja, exige-se da RFF o que não se exige do metrô, nem do DNER: que dê lucro. Por quê?

Uma das lógicas que estariam interferindo neste processo é a lógica da dívida externa brasileira. O setor de transportes é um setor com boa capacidade de captar dólares. Sobretudo porque o empréstimo vem com o aval do governo brasileiro, o que torna nulo o risco do banqueiro. É lucro certo. O metrô de Recife, por exemplo, foi altamente estimulado pelo fato de, na época do aperto de caixa do Banco Central, haver no mercado internacional dólares disponíveis para metros. Daí, antes de aperfeiçoar os ramais ferroviários com tecnologia local, o governo federal resolveu construir o metrô com tecnologia estrangeira. Assim também a decisão de erradicar os ramais ferroviários do Nordeste estaria, segundo técnicos do setor, sendo influenciadas pelo Banco Mundial, que quer transformar a RFF em empresa lucrativa. O que será, provavelmente missão impossível. Não apenas porque seu maior concorrente — a rodovia — é subsidiada, como também por que a direção central da RFF não investe na complementação do Plano Nacional de Viação/Nordeste, sem o que a demanda reprimida de carga, estimada em 800 mil toneladas/ano, jamais poderá ser atendida.

[ASSINATURA NÃO DETECTADA]

_Recife, 07/03/1985_