Só em Pernambuco foram mais de trinta associações de classe que encaminharam a Tancredo Neves documento propondo mudanças no desempenho do governo federal em relação ao Nordeste. Integram o Movimento Muda Nordeste. Para mudar, é preciso constatar que a defesa do Nordeste quase sempre adiantou pouco para o Nordeste. O regionalismo de políticos, governadores e empresários quase sempre no passado beneficiou administrações públicas ineficientes, empregulismo oficializado e empresas privadas sem mercado, tecnologicamente defassadas e administrativamente conservadoras. Esta percepção não é partilhada apenas por um grande segmento de nordestinos. E partilhada também por políticos e empresários do Sul do País, que desconfiam que subsidiar o Nordeste é subidaíor o empresário sem preço e sem mercado. E tirar do Sul para aplicar mal no Nordeste.
Evidentemente a questão é mais complexa. Estudos evidenciam que independentemente da política de subsídios incorreta, não raramente o Nordeste transfere capital para o Sul do País. Através da lucratividade não reinvestida e através da poupança voluntária ou compulsória drenada da região. De qualquer maneira, parece claro que o principal dessafio do governo Tancredo Neves é mudar este processo. As
instituições em favor do Nordeste e seus
programas de subsídios dificilmente chegam ao
Nordeste real.
Este processo não será rompido tornando os órgãos federais apenas tecnicamente melhor administrados. Mudar não é aperfeiçoar. O Nordeste precisaria, segundo Fernando Vieira Gonçalves, um dos articuladores do Movimento, de mudar o formato das instituições e o conteúdo das políticas: da política energética, agrícola e fundiária, por exemplo. Neste sentido, a Sudene pode se beneficiar de um aperfeiçoamento técnico. Mas é insuficiente. Quando se fala em mudança técnica fala-se em mudança de meios. Para o Movimento Muda Nordeste, mais do que os meios há que se mudar os fins da política federal em relação à região. Venha a Sudene a ser dirigida por Luiz Otávio Cavalcanti ou Everardo Maciel, do PFL, ou por Linaldo Cavalcanti, Aloisio Piments ou Romaldo Costa Couto, como técnicos apartidíricos, ou ainda pelos candidatos do NDE de Pernambuco, o Movimento Muda Nordeste vai continuar
(Joaquim Falcão)
_21/02/1985_