Em 24 de setembro do ano passado, o ministro Delfim Netto apostava na inflação declinante. Por isto, convocou os empresários e “pediu” colaboração. No caso, os empresários da indústria álcool-acucareira, a contragosto (poucos acreditando na inflação declinante, que acabou não declinando mesmo), aceitaram o congelamento de preço do açúcar por quatro meses. Em 24 de janeiro, como então acertado, aguardaram novo preço. Mas o preço não veio.

Como sempre, procuraram o presidente do Instituto do Açúcar e do Alcool, que os encaminhou ao ministro da Indústria e Comércio, que os encaminhou à Seplan. Procuraram o ministro Delfim. Não encontraram. Os dias foram passando. Procuram em São Paulo. Procuram em Brasília. Não encontram. O secretário-geral da Seplan promete novo preço para ainda em janeiro. Nada. Insistem os empresários. Insiste o governador Roberto Magalhães. Promessas daqui e promessas dacolá. Finalmente o novo preço saiu neste início de fevereiro. O que não seria nada demais se, como alerta o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco, Gustavo Queiroz, lider emergente do empresariado, nesta demora, e nos desencontros de data de aumento, estejam em jogo pelo menos quatrocentos bilhões de cruzeiros.

Na verdade, numa economia como a nossa, com setores altamente interdependentes, decisões sobre preços administrados não raramente efetivam reais transferências de renda de um para outro setor. Se o preço do açúcar está congelado, mas os juros que os industriais pagam não estão, inverte-se o processo: os industriais capitalizam os bancos. Se o Conselho Nacional de Petróleo, no jogo de datas, permite a formação de estoques, quatrocentos bilhões voam do setor álcool-acucareiro para projetos de interesse de multinacionais de petróleo e distribuidoras de álcool e petróleo.

No jogo das datas e dos preços congelados não é preciso agir de forma ilegal para beneficiar este setor, esta região ou aquela empresa. Basta a disposição pessoal do ministro em adiar a decisão. ‘Uma decisão discricionária, acima de qualquer controle. Controlar este poder autoritário seria uma das tarefas da Nova República. Os empresários, e os trabalhadores também, não mais suportam este reino do susto e do segredo.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 12/02/1985_