Quando se fala em transição do autoritarismo para a democracia, se pensa logo em mudanças no governo, no regime, no Estado. Não se pensa necessariamente em mudança no povo, na sociedade. Mudanças por exemplo na Igreja, na OAB, na ABI, na SBPC, nos sindicatos, nas federações das indústrias etc. Mas se o Estado mudar, dificilmente a sociedade civil deixará de mudar também. Vai mudar o Estado. Vai mudar a sociedade. Porque vão mudar as relações entre o Estado e a sociedade. Vai mudar a política. Aliás, já estão mudando. A Igreja, ainda no ano passado, foi a primeira a anunciar que vai mudar. Vai deixar o campo livre para os políticos e os partidos. Vai redirecionar a sua defesa do pobre e do oprimido. Vai fazer política de outra maneira.
No passado recente, as principais associações da sociedade civil, como a OAB, a ABI, a própria Igreja e outras, desempenharam o papel de verdadeiros partidos políticos. Não só porque os partidos eram manieados por uma legislação eleitoral e partidária casuística, mas também porque o governo autoritário lemta muito mais o Poder mobilizador e a credibilidade de política das associações civis do que o Poder e a credibilidade dos próprios partidos. O ponto culminante deste processo foi a campanha das
diretas-já, comandada pela sociedade civil, com os partidos, mas acima deles. Este desempenho, por exemplo vai mudar também.
Politicamente os partidos vão se expandir e as associações da sociedade civil vão refluir. Ou melhor, vão continuar atuando politicamente, mas diferentemente. Uma das áreas de expansão dos partidos tende a ser as próprias associações civis. Os partidos vão querer “partidarizar” estas instituições. O que seria contraproducente, pois as reduziria a meros apêndices partidários.
O desafio está em atuar a favor da democracia, junto ao Estado, sem nem substituir, nem se atrelar aos partidos; um dos caminhos é com certeza intensificar sua contribuição técnica, que é política também. As sociedades científicas participarem das políticas científicas, nuclear, energética. As instituições dos advogados colaborarem na negociação da dívida, na reforma fiscal. As sociedades de Medicina na política de saúde, de previdência. Diversas organizações já estão se redirecionando neste sentido.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 22/01/1985_