Pernambuco muito bem exemplifica como é urgente o Programa de Emergência Social a que se prope o governo Tancredo Neves. No Recife, no início de 1984, o vereador Pedro Eurico (PMDB-Pe) alertou as autoridades municipais sobre a existência de casos de doença de Hansen na favela do Vietnan. Onde comoram cerca de duas mil pessoas. Recentemente, a imprensa pernamucana informou, sem desmentido, que novos casos foram constatados. Tanto na favela Vietnan quanto na favela Vila Arraes. Especialistas sanitários constataram também casos de difteria, hepatite, e infecções nas vias respiratórias. O que é compreensível. Posto que, além da subnutrição endêmica de grande parte dos moradores, estas favelas estão situadas em terrenos alagadiços. Não raramente, seus moradores passam boa parte do dia com lama pelo joelho.
O desemprego, aliado ao analfabetismo, à carência de habitações populares, à falta de saneamento, ameaça não apenas o favelado, amas o morador da cidade; a própria cidade; e a Nacão. Um Programa de Emergência Social, voltado para alimentação, emprego, saúde, alfabetização e saneamento é condição hoje indispensável para a sobrevivência das próprias cidades. Aliás, a principal consequência deste programa federal será dar o exemplo aos
governos estaduais, e municipais também, para que cada um, em sua órbita de possibilidades e limites, implemente programas de emergência social. A Prefeitura do Recife retomou um projeto de urbanização da favela do Vietnam. Prevendo até mesmo construção de escolas. A comunidade porém tem outra prioridade: o saneamento básico. Sem o qual não há saúde, nem vida. Entrecortado de rios, a beira-mar, o Recife é cercado e constituído de mangues. Mangues constantemente aterrados. Nem sempre de forma adequada. Quase nunca. Quando não são aterrados para incontrolados projetos imobiliários. É que a titulação da propriedade dos mangues é muito problemática. Donde serem, aí, menores, as chances de remoção ou destruição de seus barracos.
Trata-se evidentemente de problema histórico, agravado pela política econômica do governo federal dos últimos anos. O que se por um lado não debita responsabilidade exclusiva às autoridades municipais, por outro permite esperar destas autoridades soluções imediatas. Urgentes, pois a situação é de emergência.
(Joaquim Falcão)
_03/01/1985_