Quando a comissão econômica foi instalada, um repórter de televisão perguntou a Tancredo Neves: “E se não houver acordo entre os membros, uma vez que três são das oposições o três da Frente Liberal?” A resposta do candidato foi coloquial, natural e imediata: “Aí, meu filho, o Presidente decide”. Esse diálogo, um entre milhares que Tancredo manteve com os cidadãos através dos meios de comunicação, aparentemente nada tem de especial. E apenas um diálogo sobre economia. Análise mais profunda, porém, permite compreender a nova maneira de exercer o poder presidencial, neste 1985 que começa.
Em primeiro lugar, Tancredo Neves, coloquialmente, restaura a possibilidade do Presidente decidir sobre questões econômicas. O Presidente quer e estará apto a analisar e optar por propostas econômicas, complexas e concorrentes. Aliás, não se trata apenas de querer. Exercer o poder é ter, antes de tudo, a possibilidade de escolher entre propostas concorrentes. Quando o presidente tem diante de si, sempre, uma única proposta, o poder não é exercido pelo Presidente. E exercido antes, nas ante-salas. Por quem afastou as demais propostas e apresentou a sua como única possível. Nesse caso, o Presidente é o avalista prisioneiro, e provavelmente amargurado, da iniciativa alheia.
Em segundo lugar, a política econômica, e provavelmente também a política social,
científica, culturai etc., deixa de ser dóada por uma Presidência iluminada a cidadãos compulsoriamente pacificados. Agora, restaura-se a possibilidade da divergência, do confronto mesmo, sem que ninguém prenda ou arrebente. Sem que o concorrente seja sumariamente desqualificado como entreguista ou esquerdisfa. Sem a divergência, e ao mesmo tempo sem a aceitação de um processo pacífico de solução de conflitos, inexiste exercício do poder. Pelo menos do poder democrático.
A resposta natural, coloquial e imediata de Tancredo Neves resulta da certeza que tem de que o País quer uma Presidência ativa. Uma Presidência não paralisada pela amargura. Nem iluminada e acima do sangue, suor e cerveja dos cidadãos. O Brasil necessita de um poder presidencial pautado pela cordialidade. Pelo reconhecimento da divergência social. E voltado para soluções sustentadas pela maioria dos cidadãos. Neste início de 85 pode-se esperar um novo exercício do poder presidencial. Mesmo porque a cordialidade não é atributo unilateral do poder. Antes, resulta da relação entre o Presidente e os cidadãos. E os cidadãos, neste Ano Novo estão cordiais diante de Tancredo Neves.
(Joaquim Falcão)
_01/01/1985_