No episódio que envolveu o general Newton Cruz e a imprensa em Brasília, não está em jogo o temperamento ou a personalidade do general. Nem a do repórter. Como também não é relevante saber quem tem ou não tem razão. Ou mesmo se houve ou não provocação por parte do repórter. Ou do general. A questão principal é outra. É avaliar o possível impacto que este acontecimento pode ter na imagem pública da corporação militar. Mais precisamente, avaliar o impacto deste acontecimento nos cinquenta milhões de brasileiros que o assistiram pela televisão. Ou mais precisamente ainda: avaliar a influência deste acontecimento na maneira como estes telespectadores vêem, compreendem e se relacionam enfim com os militares.

E evidentemente questão importante. Pois o que parece muito claro hoje é que, se nestes últimos anos o poder dos militares cresceu muito em áreas não-militares, por outro acarretou consequências. Uma delas foi vincular a corporação militar aos sucessos e insucessos do regime. Por isto mesmo, nos últimos tempos, as autoridades militares têm realizado um grande esforço para retirar os militares da política. Para desassociar a imagem dos militares da repressão, que graças à abertura política dos generais Geisel e Figueiredo, terminou. Têm
realizado um grande esforço para não deixar que sucessivos escândalos financeiros que atingem o governo atinjam os militares também. Um esforço que procura pautar as relações entre civis e militares em termos estritamente constitucionais, apolíticos, e éticos.

Evidentemente o episódio de Brasília foi um acidente. Não se pode generalizar. As relações entre os militares e a imprensa não são normalmente assim. Normalmente, são cordiais. Mas o que está em jogo é justamente saber como os militares e a imprensa se comportam diante destes acidentes. Pois é tentar tampar o sol com a peneira pretender que o acidente se esgote por si mesmo. A reação das autoridades militares, e da imprensa também, influenciará os cinquenta milhões de telespectadores. Mesmo que esta reação seja o silêncio.

Os telespectadores não estão exigindo a punição de um ou de outro. Mas, inevitavelmente estão atentos à reação da imprensa e das autoridades militares. E vão tirar suas conclusões. Para então poderem avaliar como as relações entre militares e imprensa podem ou não contribuir para a democratização do Pafs.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 21/12/1983_