Fuga de preso acontece em qualquer lugar. No Rio de Janeiro é bastante frequente. Em São Paulo, também. Já em Pernambuco, não. Raramente há fuga de preso. Assim a fuga de um preso já seria acontecimento importante. Tratando-se então do major Ferreira, o acontecimento é muito mais importante. Por diversos motivos. Pelas circunstâncias, por exemplo, em que se deu a fuga. Uma fuga com aviso prévio de meses. Na segunda-feira mesmo, na véspera, setores do meio policial do Recife, já sabiam. Se o governador excluísse o major da Polícia Militar, como manda a lei, Ferreira fugiria. Mas, a grande importância desta fuga é pelas consequências políticas que acarreta. Que extrapolam os limites de Pernambuco. Interessam a todo o Brasil.

O que está em jogo, é o confronto entre o autoritarismo policial, a violência oficial impune, os aparelhos de repressão do passado e a capacidade do Estado e da sociedade percorreréntos caminhos mais democráticos. Numa clara alusão aos aparelhos de repressão que ainda não foram de todo desativados, o próprio governador Roberto Magalhães, na reunião da Sudene, mencionou a “herança negativa, muito pesada, que não está nos déficits monetários”,
que os governadores eleitos estariam ainda obrigados a carregar.

É uma hora muito difícil para o governador. Este confronto, concretamente, questiona a própria estrutura de seu governo. Ainda não se sabe muito bem como se deu a fuga. Os detalhes. Mas já se tem suficiente certeza que o governador só foi avisado hora depois. Quando já não estava em Pernambuco. Estava em Brasília, donde, das duas, uma. Ou o setor de segurança do Palácio das Princesas não agiu a tempo — e o problema é de eficiência — ou a fuga. do major envolve uma conspiração mais ampla. Envolve os mecanismos de informação e segurança do próprio Palácio. Aí o problema é mais grave.

Qualquer das duas hipóteses exige do governador, ponderada, mas firme e destemida ação. Não será fácil. São poderosos e camuflados os interesses autoritários que pressionarão o governador. E que com certeza se acreditam ainda credores do governo. Não são não. Esta fuga não coloca em jogo o passado. Coloca em jogo o futuro.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 29/11/1983_