“Aqui vim para ver com olhos da minha sensibilidade, a seca deste ano, e vi todo o drama do Nordeste… Vim ver e vi. Vi o Nordeste de dentro, dos sertões de Cratéus e dos Currais Novos. Vi a paisagem árida, as plantações perdidas, os lugarejos mortos. Vi a poeira, o sol, o calor, a inclemência dos homens e do tempo, vi a desolação… Vi as frentes de trabalho, feitas só para assistir o homem. Vi os postos de alistamento dessas mesmas frentes com multidões famintas e angustiadas esperando a sua vez…
“Vi o sofrimento dos homens moços de mais de dez filhos, nunca menos de cinco, deixados lá longe onde não cheguei a ir. Vi crianças desassistidas ao longo do caminho… Vi essa pobre lavoura de sustento, sem técnica, sem adubo, sem produtividade, desenganada de dar o esperado fruto. E, pior que isso, vi a angústia dos meses que ainda virão sem chuva… Vi tudo isso com os meus próprios olhos e concluí o que não cheguei a ver… Nada, em toda a minha vida, me chocou assim e tanto me fez emocionar e desafiar minha vontade.
“Trouxe comigo para todas as providências os meus ministros da Fazenda… dos Transportes… o chefe do SNI… Não, não me conformo, isso não pode continuar… Há providências a tomar imediatamente, no mínimo para remediar tanta coisa que já
deveria ter sido feita. E há coisas para fazer depois para que o Nordeste não seja mais assim… Quero dizer ao povo do Nordeste que não lhe prometo nada, não prometo milagre, nem transmutação, nem dinheiro, nem favor, nem peço sacrifícios, nem votos, nem mobilizo a caridade. Só digo que tudo isso tem de começar a mudar…
“Exijo a contribuição da Nação inteira, a determinação dos governantes, o espírito público, a firmeza de todo o chefe. Exijo a austeridade de todos os homens responsáveis, para que não haja indiferença ao sofrimento e à fome. Exijo que se diga e que se mostre sempre a verdade, por mais que ela nos doa…”
PS. Não pense o leitor que este é um editorial nosso. Não é. São trechos do discurso do presidente Emílio Médici, há treze anos, na Sudene (6.6.1970), que nos foi enviado pelo deputado Fernando Lyra (PMDB-PE) com uma anotação: o ministro da Fazenda mencionado é Delfim Neto, o ministro dos Transportes, Mário Andreazza, e o chefe do SNI o general João Figueiredo.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 22/09/1983_