Não seria o dia de hoje que preocupa Delfim Neto. Seria o dia de amanhã. Pois o que está em jogo nos corredores do Planalto não é apenas a indicação do futuro presidente da República. E também, e talvez principalmente, a indicação dos futuros ministros da Fazenda e do Planajamento. Quando o presidente Figueiredo vincula seu destino político, o destino de seu governo é até de seu projeto de abertura à manutenção de Delfim Neto, o problema do ministro do Planejamento se simplifica. Não é mais, como o de qualquer ministro de qualquer governo, obter bons resultados ou ter um apoio nacional para suas políticas. Não é mais como manter-se no cargo. Isto o presidente Figueiredo assegura. O problema é indicar o sucessor, é o dia de amanhã. Pois o ministro é suficientemente realista para perceber que dificilmente o próximo presidente o convidará para ficar onde está.
O desprezo da Seplan e do Ministério da Fazenda em relação à sucessão presidencial é apenas aparente. A sucessão é vital para ambos. Daí, por exemplo, a gravidade da renúncia de Carlos Langoni. Na verdade, esta renúncia provocou uma inesperada troca de posições. Afonso Celso Pastore estava sendo carinhosa e cuidadosamente hibernado. Seria o ministro ideal. Tanto para a hipótese de Paulo Maluf, de quem já foi secretário, quanto para a hipótese de Mário Andreazza, umbilicalmente delfiniana. Era
um dos últimos meninos do Delfim não comprometido com os resultados da atual política econômica do governo. Agora Pastore se expõe, e Langoni se preserva.
politica economica do governo. Agora Passore se expõe, e Langoni se preserva.
Carlos Langoni percebeu, como o Brasil inteiro percebe, que sua permanência no barco FMI-Delfim Galvéas o bloquearia por muitos anos em qualquer pretensão mínisterial, correndo o risco do desastre econômico refletir-se até sobre suas pretensões acadêmicas, empresarias e políticas, que, como todo cidadão inteligente, cultiva. Sua renúncia pode não lhe assegurar o futuro que pretende. Afinal, seu apoio a Delfim Galvéas pode ter sido longo demais. Mas tem como consequência imediata queimar o cartucho preservado; Afonso Celso Pastore. A não ser que o tiro saia pela culatra. E Pastore, como padinho Cicero, seja santo milagreiro também. Não é necessário lembrar ao leitor a importância do sucessor econômico para a tranquilidade Delfim Galvéas. Não somente assegurará a continuidade da atual política, como assegurará a continuidade do mesmo tratamento que hoje é dado às sucessivas denuncias de irregularidades (Coroa-Delfin-Brastel-Capemi-Saraiva-Polonetas etc.etc) que florescem na área econômico-financeira.
(Joaquim Falcão)
_18/09/1983_