O fato mais importante nestes últimos dias foi o estreitamento das relações entre o Conselho de Segurança Nacional e a política econômica do governo. Não que inexistissem antes relações entre política econômica e Segurança Nacional. Sempre existiram. No passado a Segurança Nacional assegurou condições institucionais, políticas e ideológicas para a política econômica prosperar. Para tanto, combateu a corrupção e a subversão. Cassou membros do Legislativo e Executivo. Agora é diferente, a prioridade é outra. Não é mais o controle da vida política ou institucional do Pals. É a obediência à política econômica. A ameaça à Segurança Nacional não vem mais prioritariamente das contestações dos políticos. Vem das contestações econômicas. Fuidiram-se Segurança Nacional e política econômica do governo. Este fato tem várias consequências.

Uma consciência está clara. A relativa autonomia de que a Segurança Nacional gozava diante dos erros e dos acertos do governo é menor. Autonomia que a resguardava. Daqui em diante, para a comunidade internacional e para o cidadãos brasileiros — civis, militares ou religiosos, do governo ou das oposições, empresários ou trabalhadores — vai ser difícil separar decisões econômicas
de decisões de Segurança Nacional. O sucesso ou fracasso de um será o de outro também. A credibilidade de um, será a do outro também.

Outra consequência ainda não está clara. Até que ponto o Conselho de Segurança Nacional apenas apoiará decisões econômicas formuladas fora do âmbito do Conselho, e até que ponto, ao contrário, o Conselho formulará ele próprio decisões econômicas?

O presidente Aureliano Chaves, ao enviar ao Conselho a reconstrução de Santa Catarina, tomou Iniciativa importantíssima. Retirou a decisão do âmbito de Delfim Neto e de Mário Andreazza. Por motivos óbvios. E levou ao Conselho o outro lado da moeda. As medidas econômicas da semana passada foram reivindicações do FMI. A reconstrução de Santa Catarina é reivindicação nacional. Aquelas implicam a contenção da economia. A reconstrução implica a expansão de gastos. Em palavras simples, o presidente Aureliano estaria simbolicamente dizendo que a economia de Segurança Nacional não pode ser monopolão de um só ministro, nem atender a reivindicações de um só setor.

(Joaquim Falcão)

_24/07/1983_