O pianista Artur Moreira Lima veio a Pernambuco tocar Chopin no histórico e luxuoso Teatro Santa Isabel. Noite de gala, muita luz, sucesso absoluto. No outro dia, meteu-seMoreira Lima, em companhia do maestro Cussy de Almeida, pelos escuros bares de Olinda, a ouvir os grupos locais de chorinho. E a tocar também. Outra vez, sucesso absoluto. A política musical brasileira deveria fazer também este itinerário de Moreira Lima e Cussy de Almeida. De Chopin a Pixinguinha. E ao baixo. Do cravo bem temperado ao bandolim bem afinado. Da música clássica estrangeira, à música pura brasileira, inclusive à música armorial. Pois esta é, queiramos ou não, uma complexidade natural da cultura musical brasileira. Uma cultura extremamente plural. Feita, como a nossa sociedade, de contrastes, divergências e convergências. Ora, esta pluralidade que Moreira Lima tão bem reconhece e pratica ainda não é de todo aceita. Pelo menos, por exemplo, no que diz respeito ao ensino universitário.
O jovem que pretender se profissionalizar em música popular brasileira, ou o profissional popular que necessitar de um aprofundamento teórico ou prático, com rares exceções, não vai poder contar com o curso universal. É que quase todos
estes cursos estão ainda voltados para a música clássica. Sobretudo a música clássica estrangeira, O que não é pecado mortal. Pecado mortal é o exclusivismo. Quem pretender, por exemplo, se especializar em cavaquinho e bandolim, sem os quais chorinho não há, não terá lugar na universidade. Lá status e poder são privilégios do piano clássico, do violoncelo, do violino, do oboé e por aí vai. A política musical brasileira ainda não igualou em prestígio e importância nossa música popular à música clássica estrangeira. A legislação universitária ainda hoje não reconhece o bom tocador de bandolim como professor. Pura ensinar tem que ter um título formal e não competência musical. Daí porque, em Minas, Milton Nascimento abriu sua própria escola de música. E com sucesso.
E provável que, na medida em que a redemocratização do Pais faça avançar o debate cultural, os padrões da política musical brasileira se modifiquem. E os instituições de ensino universitário se abram para um Brasil mais real. (Joaquim Palelo)
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_19/07/1983_