Não pode passar despercebida de ninguém a entrevista do presidente do Congresso, o senador pernambucano Nilo Coelho, sobre a sucessão presidencial. O senador foi, como tem sido sempre, claro e direto. Fundamentalmente, disse: o presidente da República coordena, mas quem escolhe o sucessor é o Congresso. E mais, quem ganhar, leva. Com esta declaração, o senador defende o Legislativo, a classe política. Coloca-se acima dos interesses particulares deste ou daquele candidato. Como presidente do Congresso, sua obrigação é defender sua instituição. O senador o fez. Mais ainda, revela compreensão realista do momento político que vivemos, que exige cada vez mais tanto a autonomia dos podres da República como o diálogo entre eles.
No fundo, o senador está dizendo também que o momento político brasileiro já não pode ser limitado às decisões fechadas dos gabinetes do Poder Executivo. Sua própria experiência, tomando o risco e iniciativa de se lançar candidato à presidência do Senado, e o sucesso que obteve, exemplificam este novo momento. Este é o novo padrão de fazer política no Legislativo: a iniciativa própria, os acordos e as alianças. E também o meio maior de defender e praticar a in
dependência dos poderes. Se assim for, dificilmente o País desemboca no impasse. Pols fazer política passa necessariamente por momentos malores ou menores de impasse. Não há que se ter medo de impasses. Há apenas que se redobrar a negociação. Assim, o Congresso é o lugar privilegiado, pois lá está representada a maior parte dos interesses dos diversos grupos e classes sociais brasileiras. A negociação ali será mais ampla e mais realista. E portanto mais legítima. Neste sentido simbólico importante. Além, evidentemente, de consequências práticas importantíssimas. Tem o sentido de dizer que negociar nem é contra o regime, nem fere a hierarquia.
De resto, as declarações do senador não se chocam com a da presidência da República. Chocam-se, isto sim, com os que ainda defendem que as decisões fundamentais da política brasileira sejam decisões exclusivas do Executivo. Onde as preferências e alianças pessoais contam mais. Nemo presidente Figuelredo está nesta posição. Muito menos o Congresso.
(Joaquim Falcão)
_31/05/1983_