Dom Francisco Austregésilo de Mesquita, bispo de Afogados de Ingazira, no sertão do Pajéu, foi muito claro. Afirmou que o que ainda o espanta diante da miséria e da fome do sertanejo é a sua pacificidade. O seu remorso por saquear lojas para matar a fome. Comparou este saque ao exercício de um direito natural: o direito à sobrevivência. Diante da crueza de seu pronunciamento, calcado na crueza de um sertão assolado por miséria e seca, não se fica indiferente. Como não ficou o próprio governador Roberto Magalhães. Antes que os setores mais conservadores do PDS se voltassem contra dom Mesquita, o governador se pronunciou. Lembrou que a Igreja Católica é milenar, e que o PDS tem apenas cinco anos. Seria prudente refletir sobre o discurso de um bispo quando transmite a experiência de uma instituição milenar. O direito à sobrevivência, nenhuma lei estatal pode retirar do cidadão. O que, aliás, não o faz nosso Código Penal, que justamente entende o furto famélico como um excludente de culpabilidade.

Dom Mesquita reconheceu a necessidade de os onze prefetos da região, acima de divergências partidárias, unirem-se para pressionar o governo para resolver o problema da fome e do saque. É justamente neste ponto que tudo se complica. No Brasil de hoje, a pressão política pacífica, com base
nos princípios mínimos da moral e da solidariedade, pode pouco. Ou quase nada. Pois não estão também os governadores do Nordeste unindo-se e reunindo-se para obter do governo federal um mínimo de recursos para combater o desemprego, a fome e o saque, sem nada, ou quase nada, conseguir? Os prefeltos se unem para pressionar o governo. Os governadores se unem para pressionar a Presidência.

E daí, o que se segue? Nada muda a política económica. O saque no Pajeú atormenta o bispo, preocupa o governador, incomoda o Presidente, mas não chega a Washington.

E depois de tudo, haja sucessão presidencial. O desempregado, no Recife e em São Paulo, e o flagelado, no Pajéu, não têm nada a ver com a sucessão. Nem o empresário com faturas a receber do governo, nem o trabalhador com salário atrasado. Em vez de sucessão, os políticos do governo ou das oposições deveriam ocupar-se dos problemas reais que atingem a maioria dos brasileiros.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 24/05/1983_