Como quem não quer, mas querendo, o ministro Hélio Beltrão vem-se posicionando como candidato à sucessão do presidente João Figueiredo. Seus últimos pronunciamentos extrapolam em muito os indefinidos limites da desburocratização e previdência social. Pouco a pouco revelam uma preocupação muito maior: com a crise social, econômica e política. A candidatura Beltrão tem bases diferentes e segue caminho diferente da de Paulo Maluí, é óbvio. No futuro pode ser que Beltrão venha a disputar os votos dos convencionais. Por enquanto, o caminho é outro.
São pelo menos três os trunfos com que conta, hoje. Primeiro, o fato de ser seguramente o ministro de maior popularidade do governo, e provavelmente de maior credibilidade junto aos empresários. Não se trata de popularidade e credibilidade frutos de medidas “simpáticas” na área da desburocratização. Não se deve esquecer que Beltrão é líder da classe empresarial. E tem uma concepção sobre o Ministério do Planejamento radicalmente diferente da que prevalece atualmente com Delfim Neto. Esta concepção encontra muitos apoios. Dentro e fora do governo. Na situação e na oposição. Segundo, o fato de ter sob seu controle, além da desburocratização, o Ministério da Previdência Social. Paradoxalmente, a
tarefa que se propôs — despolitizar a previdência depois da era Soares — pode ser importante cacife político. Finalmente, Beltrão é hoje amigo de confiança do presidente Figuelredo. A quem o Presidente ouve.
A opção Beltrão, para ter sucesso, terá que ser a opção Figueiredo. Quer dizer, sozinho Beltrão não poderá neutralizar a polarização dos convencionais, entre Andreazza e Maluf. A opção Beltrão só é viável diante do impasse, ou da redefinição do rumo do processo sucessório dentro do PDS. Atualmente, o Presidente está deixando o jogo correr livre. Daí as constatações de que a Presidência não está encaminhando a sucessão. E que se não for feito por Figueiredo, o futuro presidente será feito por Gisel. Este pode ser um dos caminhos. Mas é cedo ainda para dizer que é o caminho escolhido. Há que se jogar também com a possibilidade de o presidente Figueiredo retornar a condução do processo e indicar um civil, de sua confiança, com credibilidade popular, representatividade no meio empresarial e habilidade política: Hélio Beltrão,
(Joaquim Falcão)
_26/04/1983_