E evidente, militares e empresários não apoiaram por 18 anos os administradores da política econômica oficial para terem o desencanto de hoje. Verem o Brasil ser considerado pela comunidade internacional devedor sem condições autônomas para pagar as dívidas. O objetivo era outro. Era retirar o País do subdesenvolvimento. Colocá-lo como parcelo adulto do capitalismo ocidental. Mas entre desejo e realidade, a distância é grande. E quando não se obtém o que se pretende, cumpre identificar onde houve o tropeço. Colocar a culpa na crise internacional é tapar o sol com a peneira. A crise internacional é parte da verdade. A outra parte, por mais duro que seja, não está lá fora. Está aqui dentro. E a incapacidade da política e da administração econômica oficial para enfrentar a realidade internacional em crise. Isto é muito claro. O FMI não vai emprestar ao Brasil exigindo medidas “internacionais” para solucionar a crise financeira internacional. Vai empresar exigindo medidas “nacionais” para resolver a crise financeira nacional.
Não se trata de crucificar este ministro ou aquele tecnocrata. Não é hora de caça às bruxas. Reconhece-se o esforço atual que fazem para cobrir o déficit. Mas quem duvida da capacidade desta administração não é o trabalhador, o empresário, o jornalista ou o eleitor. Quem duvida são os próprios fatos. Quem duvida é o estouro de caixa do Banco do Brasil em Nova York e os banqueiros estrangeiros que se recolheram. De resto, o problema não está nos gerentes. Em mais amplo. Para o atual regime, esta crise coloca grave questão: a questão das relações entre os administradores da política econômica do governo e os militares. E entre estes a sociedade.
Nestes 18 anos, em nome de uma mistériosa racionalidade, a política econômica do governo funcionou autônoma, independente e para muitos impunemente. Sem controle nem pelo Judição, nem pelo Legislativo, nem pelos empresários, nem pelo produtor ou consumidor. Esta é a questão crucial. Trata-se de uma política econômica solitária. Sem a participação é sem o controle dos segmentos sociais brasileiros. Os militares, por formação, não podiam se transformar em econômistas e, de resto, juntamente com toda a sociedade brasileira ficaram impossibilitados de fazer uma apreciação precisa dos rumos da economia nacional. Por dois motivos pelo menos. Primeiro, porque as decisões econômicas progressivamente centralizaram-se em Brasília. Excluiu-se a participação dos empresários, dos trabalhadores, dos políticos (de oposição ou do governo), até mesmo dos governadores do PDS ou ministros da área social, restritos a repassadores de recursos dos planos federais, onde dificilmente tinham direito ao voto. Segundo, porque progressivamente baixou o nível de informações sobre nossa economia. O controle dos dados impediu o debate até entre os economistas, fossem eles da oposição, da Universidade ou do governo.
É preciso aprender com os fatos. Não se pode gerir a oitava economia do mundo sem uma expressiva participação social no processo de decisão das políticas econômicas. E sem um fluxo razoável de informações confiáveis.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 19/12/1982_