Afinal de contas, para que serve o FMI? As autoridades financeiras brasileiras afirmam, e é verdade, que os 4,5 bilhões de dólares que poderiam ser emprestados não resolvem nosso problema. Não adianta ir ao Fundo por estes trocados. Sugere-se também que o Brasil já adota, por vontade própria, a dura política financeira que o FMI iria provavelmente “sugerir”. Se tudo é verdade, por que os banqueiros norte-americanos insistem para que o Brasil vá ao Fundo? O poder financeiro do FMI parece ser insuficiente.
Quando o banqueiro emprestou ao Brasil não pediu o aval ao FMI, Nem os banqueiros norte-americanos, por exemplo, pediram licença ao seu governo em Washington. Foram sempre operações de crédito de natureza privada. Entre um banco particular e seu cliente. Agora que o cliente está em dificuldades, os banqueiros querem transformar um problema privado em problema público.
Quer dizer, querem envolver formalmente os governos nacionalas. Quem tem assento no FMI não são as instituições financeiras privadas. São os governos nacionalas. Uma coisa será o Brasil negociar, discordar ou não cumprir com as decisões de um Citycorp ou um Chase. Outra, será negociar, discordar ou não cumprir com as decisões do FMI.
Para os banqueiros, levar o Brasil ao Fundo significa aumentar a pressão sobre o cliente e transferir o ônus político da negociação da dívida para a esfera da relação
entre governos. Onde al o poder de barganha norte-americano é evidentemente maior, Haja vista a atual negociação do Gatt. Significa também neutralizar o protesto político que com certeza haverá quando da adoção do receituário do FMI. O FMI não tem cara. Não tem porta, nem agência nos países onde aplica sua fórmula. O protesto popular dos empresários nacionais, da imprensa e dos políticos terá dificuldades em encontrar um interlocutor, quer dizer, um adversário.
O FMI também ajudará o banqueiro norte-americano a enfrentar seus acionistas. Simbolicamente, o banqueiro estará dizendo ao acionista: “Não fomos nós que emprestamos mal. O problema brasileiro é mais amplo do que o que normalmente se contempla nas relações banco-cliente. O próprio FMI interferiu.” Além, evidentemente, de “socializar” o risco dos principals credores. Os pequenos e médios bancos norte-americanos estará o mais seguros para voltar a emprestar. E mais. Se daqui para frente o Brasil continuar com crise de liquidez, a culpa será do FMI. O FMI terá que arranjar mais dinheiro. Aliás, é justamente esta a proposta do vice-presidente do Chase Manhattan, William Ogden: “Os recursos financeiros do FMI devem ser aumentados para atender os países que têm dificuldades em conseguir crédito junto aos bancos privados.”
(Joaquim Falcão)
_Recife, 28/11/1982_