‘Enganam-se os que acreditam que eleição é um processo onde muitos concorrem, mas apenas um ganha. Pelo menos no Brasil, como diz a cientista política Maria do Carmo Campelo, a impressão que se tem é que todos ganham. De fato, faltando apenas 25 dias para as eleições, não se encontra um candidato a vereador, deputado, prefeito ou governador que não afirme e reafirme que esteja eleito. Já ganhou. Seja candidato em Belo Jardim, em Pernambuco, ou no Brás, em São Paulo. Todos justificam a vitória da mesma maneira: o crescente apoio dos eleitores, o sucesso dos comícios, a indispensabilidade de sua mensagem, a crescente falta de espaço dos concorrentes, etc.
Pesquisas justificam a vitória de todos. Seja a pesquisa artesanal feita pelo candidato entre amigos e conhecidos. Seja a pesquisa contratada a firma especializada. Governo e oposições, candidatos e partidos, todos têm suas pesquisas. E o SNI provavelmente tem a de todos,
Até aí, tudo bem. Afinal um dos determinantes da vitória é justamente a expectativa da vitória. Abre a caixa dos financiadores de canpanhas e anima os militantes. E como a esperança é a última que morre, candidato nenhum entrega o jogo antes do apito final.
O importante na eleição à brasileira é que todos ganham antes, durante o depois das
eleições. Vejam as eleições passadas. As oposições ganharam com mais de 5 milhões de votos, mas o governo ganhou maior número de cargos. O que provavelmente se repetirá este ano. As oposições juntas terão mais votos e o governo mais cargos.
Estranha esta fase política brasileira, onde não se sabe quem ganha e quem perde. Vejam outro exemplo. Na revogação do AI-5, na decisão da anlistia, na provável nova Constituição, tanto governo quanto oposições afirmam que ganharam. Esta confusão entre ganhar e perder parece ser a condição necessária para o sucesso da abertura política. Dentro das oposições alguns já advogam uma vitória comedida. Quer dizer, para as oposições ganharem mesmo, o governo não pode se sentir derrotado. Como dentro do governo há os que acreditam que para o governo federal continuar ganhando tem que perder alguns Estados. Uma das explicações para esta confusão toda talvez esteja mesmo na estratégia golberiana: para os militares ganharem o regime, terão que perder o governo para os políticos civis. Ainda bom que 15 de novembro está perto. Para clarear tudo, ou confundir de vez.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 21/10/1982_