O impacto mais visível do discurso do presidente Figueiredo na ONU é na posição do Brasil no cenário internacional. O impacto diplomático. As corajosas e independentes posições expressadas pelo Presidente reabrem a possibilidade de o Brasil vir a disputar a liderança do Terceiro Mundo. Existem no entanto outros impactos. Menos visíveis, mas nem por isto menos importantes. Dois deles são cruciais para a vida política e econômica do País nestes próximos meses.
O primeiro diz respeito ao sentimento que o Presidente, como governante de uma nação, deve estar experimentando: o sentimento de ter expressado aspirações na cionais. De ter expressado a unanimidade nacional. Sentimento raro e difícil para qualquer governante. Não se deve mehoisprezar esta experiência pessoal do Presidente. Sobretudo nestes tempos eleitorais, quando o Presidente muita vez tem que decidir entre ser o árbitro que busca consolidar a aspiração nacional democrática de todos ou ser o militante partidário que busca defender o voto de alguns para somente alguns.
O impacto maior e menos visível, porém,
síqua-se a nível da nossa dívida externa. O
discurso, é óbvio, procurou reforçar a po-
sicação dos ministros da área econômica nas difíceis negociações com os banqueiros e o FMI. Será que, conseguiu? Enquanto o Presidente falava na tribuna da ONU, os ministros falavam no tribunal dos banqueiros. A posição dos ministros não deve ter sido tão independente quanto a do Presidente. Na paula dos ministros, com os banqueiros não estava apenas o controle do crédito bancário e das importações. Estava também a contencão do setor público, inclusive e sobretudo das estatais. E nesta área não bastaria mais apenas reduzir despesas de capital, os grandes investimentos públicos, seria necessário agora reduzir também despesas com pessoal do setor público, o que agravaria o desemprego sobretudo na classe média urbana.
O impacto sobre as negociações que envolvem a dívida externa e sobre as condições que os banqueiros vão exigir dos ministros será talvez o menos visível, mas com certeza o mais palpável, a curto prazo, para o cidadão comum, do discurso do Presidente.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_Recife, 30/09/1982_