O senador Marcos Freire trouxe a público mais um caso de corrupção, em Pernambuco. Em Surublim, no interior do Estado, recursos do Banco do Nordeste do Brasil, que deveriam ser aplicados para a compra de farelo de algodão, foram desviados para outros fins através do uso sistematizado em cinco agências bancárias de notas frias. E o escândalo do farelo. O presidente do Banco do Nordeste do Brasil, Camilo Calazans, já confirmou a existência de irregularidades, confirmando de início, as informações de Freire. O Banco Central já início a apuração do caso. Como no escândalo da mandíoca, estariam envolvidos não apenas funcionários das organizações bancárias, mas eventualmente políticos, ou elementos ligados aos políticos do PDS. Evidente que este envolvimento não implica necessariamente que o PDS é um partido de corruptois. Não é. Como não implica necessariamente que o sistema bancário, sobretudo no que diz respeito à distribuição do crédito agrícola, como crédito subadiado, é um sistema corrupto. Não é. No entanto, esses casos, o do farelo hoje e da mandíoca ontem, são desafios tanto para o PDS quanto para o Banco Central e o sistema bancário. A sociedade quer saber, e através da imprensa livre, necessariamente saberá e acompanhará, como o PDS e os bancos oficiais se posicionam diante da corrupção.
A primeira pendência do Banco Central, do Banco do Nordeste e do Banco do Brasil (este no caso da mandíoca) é promover de imediato fiscalização para apurar as irregularidades. Até a tudo bem, Mas a tendência também é, na medida em que os próprios inquéritos avançam, a tratarem o problema como um problema interno destas instituções, cujas punições se limitam ao âmbito interno. Por detrás desta tendência está o
argumento de que se as irregularidades vierem a público, a imagem da instituição ficará atingida. Não fica não. Fica, se estes problemas continuarem sendo tratados como estão hoje: a portas fechadas. Pois neste caso, mesmo se as irregularidades são apuradas e os culpados punidos, a sociedade fica sem saber como isto foi possível, e quais seus responsáveis finais. Normalmente a responsabilidade fica restrita aos escalões inferiores. Tudo se passa como se o Pais não tivesse, por exemplo, um Judiciário onde estes casos deveriam ser apurados. Por seu lado, a primeira tendência do PDS de Pernambuco é se omitir diante do público. Não chega a proteger os seus filiados eventualmente envolvidos nestes casos. Simplesmente banca o avestruz. Enfia a cabeça em algum lugar e espera a turbulência passar. Pelo menos foi assim no escândalo da manhã, e no assassinato de Pedro Jorge. Enfido o encolhimento do PDS de Pernambuco neste caso. Seus líderes não vão além de algumas declarações formais. No caso de tentativa de assassinato do candidato do PMDB, Clodoaldo Torres, os principais líderes do PDS também quase não se pronunciaram. Por quê? Não é esta a atitude que o eleitor espera de um partido. Nem o cidadão das autoridades do governo. Por detrás desta tendência está o argumento de que dar valor a estes casos, se pronunciando nitidamente, pode desgastar eleitoralmente o PDS e o anverno. Não desgasta não. O que desgasta é o silêncio. Pois com ele vem a mensagem implica de que o País é este mesmo. Um País de impunidades.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 19/09/1982_