Quando fazia comício, em plena Feira de Afogados, das mais concorridas do Recife, o candidato a deputado estadual pelo PMDB Clodoaldo Torres foi baleado. Quando denunciava o esêandalo da mandíoca, um cidadão, que sequer conhecia, adiantou-se da multidão e atirou. Clodoaldo escapou porque a bala pegou no microfone e desviou de seu coração. O atirador é o comissário de polícia José Heraldo, que já se apresentou à Secretária de Segurança. O inquérito foi aberto e a prisão administrativa decretada. O PMDB imediatamente acusou o governo do Estado de compactuar com este clima de violência visando a intimidar as oposições e favorecer o PDS. O PDS, por sua vez, manteve-se calado. Exceção feita ao candidato a vice-governador, o ex-prefeito Gustavo Krause, que acha que o importante nesta hora é se solidarizar com a família de Clodoaldo, e não dar maior relevância ao conteúdo político deste atentado.
Evidentemente que não se pode, nem se deve, deste fato isolado, concluir que o governo e o PDS estão usando a intimidação policial, violenta e ilegal, para ganhar as eleições. Mas também não se pode deixar de prestar atenção às palavras do próprio atirador, quando se apresentou ao secretário de segurança. Em sua defesa alegou que atirou em Clodoaldo porque estava em serviço como comissário, e porque o candidato fazia discursos contundentes contra o presidente Figueiredo. Trata-se, é claro, de uma tentativa espúria de envolver o presidente Figueiredo, confundir a opinião pública e tentar obter o apoio do regime para este atentado. Independente de suas decisões serem verdadeiras ou não, e
provavelmente não são, o fato explicita o clima que vive Pernambuco.
Por detrás da argumentação do atirador estão algumas premissas, que governo e sociedade devem com veemência repudiar. A primeira é que a polícia tem no Brasil de hoje um compromisso político com o regime e o governo. Acima do compromisso que tem com o cidadão. Com os cidadãos que como Clodoaldo exercem direitos legais e legítimos. A segunda é que este compromisso com o regime e com o governo não tem limites. E capaz de justificar até um, atentado a bala, ao qual com certeza o próprio governo e o próprio regime se opõem. Mas no entanto são ambos incapazes de controlar, e provavelmente de punir.
Estas premissas só vigoram quando existe uma história anterior de impunidades. Neste ponto o atentado a Clocoaldo se vincula ao escândalo da mandíoca. Abrir inquéritos, decretar prisões administrativas não significa necessariamente que a violência está contida. Os inquéritos se arrastam, as prisões se relaxam e os atentados saem da ordem do dia do noticiário. Começa então o segundo tempo. Onde, através de formas artifícios légals e de pressões políticas não confessadas, a impunidade será condenada verbalmente mas vicejará na prática. O processo da mandíoca arrasta-se sem solução à vista. Esta impunidade não serve nem ao governo nem da oposição. Nem passa despercebida aos cidadãos eleitores.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_Recife, 09/09/1982_