A crise econômica está transformando-se no tema central da campanha eleitoral em todo o Brasil. Diante da qual o PDS e as oposições são obrigadas a se posicionar. As oposições jogam a culpa da crise no governo e no regime. Os candidatos do governo por sua vez tentam passar adiante esta batata quente. Estão jogando a culpa nos tecnocratas. Nos tecnocratas do próprio governo. Escolhidos para ser os novos Cristos da crise. Tanto o tecnocrata do primeiro escalão lá em Brasília quanto o tecnocrata do último escalão aqui no Recife. Não escapa ninguém. Esta tática eleitoral do PDS, de desassociar o governo e seus políticos dos seus tecnocratas, é compreensível. Afinal é difícil o candidato do PDS se apresentar junto ao eleitorado como co-responsável pelo milagre econômico que está aí. Seja junto ao empresariado, imprensado entre o fisco e o juro, seja junto ao operariado, amarrado entre o salário e a prestação. A aparente culpa do tecnocrata se desfaz quando consideramos pelo menos dois aspectos.

A crise não resultou do erro do tecnocrata ao implantar a política econômica ou dos excessos das estatais. Afinal todo mundo pode errar. Não pode é persistir impunemente no erro. No caso, a crise é fruto também da impunidade política, quer dizer, democrática, dos tecnocratas e das estatais. E fruto da impossibilidade de o eleitor mudar pelo voto e pela pressão legítima a política econômica do governo e seus tecnocratas preferidos. A impunidade política do tecnocrata sobreviverá na medida em que os casuímos
deturpam a vontade do eleitor, que o Legis-
lativo continue submisso, que o Judiciário
continue ineficaz, e a sociedade civil con-
tinue desorganizada.

Como também os tecnocratas não existem por si sós. Existem com as políticas e programas que implementam, e sobretudo com aqueles que definem suas políticas e programas. Embaralhar as cartas a esta altura do campeonato e fazer crer que quem decide as políticas governamentais são os tecnocratas dos vários escalões de Brasília a Recife pode ser uma tática eleitoral conveniente para o PDS. Traz consigo, no entanto, dois pressupostos implicitos: O primeiro é que o eleitor vai convencer-se de que o que importa é mudar o técnico, o assessor, o gerente e o diretor da estatal, E não o ministro, O governador e o político do governo. O segundo é que o atual governo, isto é, o ministro, o governador e o político do PDS não são mais capazes de controlar a própria máquina do Estado e os próprios tecnocratas que escolheram. Aliás, o próprio presidente Figueiredo já admite francamente a imposibilidade de controlar as estatais. De resto, ainda faltam mais de sessenta dias para as eleições. O PDS, para convencer os eleitores de que os culpados são os tecnocratas e as estatais, vai precisar muito dos tecnocratas e das estatais.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 05/09/1982_