Mais um
Mais um economista propõe a renegociação da nossa dívida externa. Desta feita não é ninguém ligado ao governo ou às oposições. É o professor Werner Baer, um brasilianista que esteve no Recife, na Fundação Joaquim Nabuco. Baer tem a autoridade de quem muito contribuiu na década de sessenta para a formação de quase toda uma nova geração de economistas brasileiros. Tem a isença de quem inclusive já trabalhou para o governo brasileiro como consultor do Ipea, da Seplan. Para Baer a renegociação é quase inevitável. E provavelmente aconselhável, diante das crescentes dificuldades da economia brasileira. A questão básica que se coloca então é como e quando renegociar.
A renegociação poderia, em princípio, ser uma transação restrita apenas ao Brasil e seus credores, os banqueiros internacionais. Neste caso, para Baer, a estratégia seria tentar fazer com que os banqueiros assumissem parte da responsabilidade pela política de exportação. Uma possibilidade seria a criação de companhias de comércio internacional, numa associação entre o Brasil e seus banqueiros, com o objetivo de tentar vencer crescentes barreiras que nossos produtos encontram nos países dos próprios banqueiros.
Um segundo curso seria mais complexo. Seria uma renegociação não mais a nível de credor e devedor, mas a nível dos diversos governos interessados no problema. Neste caso estaríamos muito perto de uma nova conferência internacional, redefinindo o sistema financeiro mundial. Algo tipo Bretton Woods. Allás a probabilidade desta nova
Bretton Woods é cada dia maior. Ainda esta semana foi o próprio vice-presidente da Fiesp, Cláudio Bardella, quem defendeu um novo ordenamento da economia internacional. Se esta nova ordem financeira é inevitável, uma consequência se pode logo deduzir; a decisão de renegociar ou não a dúvida não mais pertenceria ao governo brasileiro. Nem aos seus banqueiros, Quem vai decidir é a evolução da crise financeira internacional. O motivo parece simples. Caso se tratasse de uma renegociação isolada, tudo bem. Mas quando é uma série de países a renegociar, o sistema internacional não aguenta. Esta série está aumentando e inclui Polônia, Costa Rica, alguns países africanos, Argentina e provavelmente México.
Uma nova Bretton Woods significa paradoxalmente que a fraqueza, a falência total dos países devedores, transformou-se na arma mais poderosa contra os países credores. As regras até agora intocáveis do sistema financeiro internacional, que protegiam o banqueiro de qualquer risco, começarão a ser revistas. O importante é saber se esta renegociação a nível de governos produzíria apenas um plano de apoio ao desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo. Neste caso, seria uma conferência entre desiguais. Ou se realmente os países devedores, como o Brasil, poderiam alcançar algumas vitórias mais definitivas.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 22/08/1982_