Segundo Afonso Arinos, “casuísmos eleitorais são vãs tentativas de se colher a vitória sem travar o combate”. E tentativa de ganhar a eleição sem enfrentar o eleitor. O paradoxo da abertura é justamente esté.
O governo quer encontrar o eleitor. Mas não quer. Já que não ganhou a batalha do desenvolvimento econômico, a legitimidade do governo, efêmera como um almoco, para sair da crise necessita de eleições. Mas é justamente porque não ganhou a batalha do desenvolvimento econômico, a ponto de poder “dispensar” eleições, que o governo não quer encontrar-se com o eleitor. Quer dizer, não quer encontrar esse cidadão brasileiro que acorda todo o dia com menos salário e com mais imposto e inflação. Daí a tática da vitória sem combate tenta transformar as eleições num encontro apenas com o eleitor formal, dispensando o eleitor real. O casuísmo legal acredita na ilusão de poder substituir o eleitor real pelo eleitor formal. Por exemplo: as leis casuísticas partidárias proíbem ao eleitor real escolher livremente seus candidatos. A Let Falcao proíbe o eleitor real de se informar livremente. Tudo indica no entanto que a tática da vitória sem combate quer mais dois casuísmos: o “voto marmita” e o casuísmo gráfico, o controle do formato da cédula eleitoral.
Ora, o que os casuísmos demonstram à exaustão, ao governo e às oposições, o que são sempre insuficientes. Não resolvem o paradoxo da vitória sem combate. O causismo do hoje há mais de dois anos não assegura a vitória do PDS amanhã. Ao contrário, exige mais causismo.
É saco sem fundo, Parafuso sem rosca, O caminho está errado. A confusão é tamanha que casuísmo já briga com casuísmo. Tome-se o “voto marmita”. Uma de suas primeiras consequências será a diminução dos votos nulos que seriam produzidos pelo casuísmo da vínculação. Ora, aqui pelo Nordeste já se tinha como certo que o voto nulo favoreceria o PDS. O motivo é simples. Haveria muito mais votos nulos nas capitais, onde as oposições são maioria, e onde é difícil ensinar o eleitor a votar na boca da urna, do que no Interior. Do que no sertão por exemplo, onde os votos nulos seriam menores, pois com ou sem “voto marmita” os votos já são controlados pelos currais eleitorais tradicionais.
Tomar uma decisão desta — a favor do “voto marmita” ou do casulismo gráfico — é tiro no escuro. Não há pesquisa ou previsão que garanta que favorecerá o PDS. Dificilmente será decisão objetiva. Pode vir, talvez, para acalmar uns tantos políticos que têm maior acesso e influência no Planalto. Resta saber se este é o caminho adequado para assegurar a vitória do PDS. Sobretudo se considerarmos como Afonso Arinos que “o que se trava hoje no Brasil não é um combate, mas sim uma batalha pela restauração da democracia constitucional brasileira”.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_05/08/1982_