Pesquisas feitas no Rio de Janeiro e em Pernambuco sobre os efeitos da vinculação dos votos no resultado das eleições de novembro são bastante claras. No Rio, o Ibope diz que ninguém ganha. Nem governo nem oposição. A eleição será simplesmente anulada. Em Pernambuco, os votos dados a Marcos Freire, do PMDB, e a deputados e vereadores do PDS no Recife seriam também na maioria anulados. No resto do Brasil não seria muito diferente. Se as eleições fossem realizadas hoje, em muitos Estados seriam anuladas, devido aos votos nulos. Se a vinculação total foi determinada para consolidar o pluripartidarismo, como argumenta o PDS, ou para beneficiar o governo, como acusam as oposições, é hoje discussão sobre o sexo dos anjos. Discussão sobre as boas ou más intenções do legislador. Como política se faz com fatos e não com intenções, importa é o fato ilimpido: a vinculação é hoje uma loteria. Roleta-russa. Pode atingir governo e oposições. Pode sobretudo se voltar contra o próprio jogo da abertura: anular as eleições.
O PDS não está tranquilo com a vínculação. Em muitos lugares ela atinge seus candidatos a prefeito, vereador e deputado, que terão seus votos anulados. Em alguns Estados, como o Rio, ela dificulta a eleição de candidatos mais próximos ao regime. Sandra Cavalcanti, do PTB, por exemplo, a cada dia perde terreno diante da combinação voto vinculado e máquina do chaguismo, que poderá levar ao poder a aliança Miro Telzeira e esquerda cartoca. Mais ainda: as eleições de 74 e de 78 indicam que a sigla, o nome do partido, é uma das principais influências na decisão do eleitor. Ou
seja, a eficiência da propaganda em torno da
sigla do PMDB por causa da vinculação
deverá ser multiplicada.
As oposições defendem-se como podem. Em alguns lugares defendem o voto camarão. O voto sem cabeça. Ou seja, o eleitor vota em todos, menos no candidato a governador. Em outros, defendem exatamente o contrário: o voto lampião. O voto apenas na cabeça. O eleitor vota apenas no candidato a governador e esquece o resto. Onde não conseguirem nem um nem outro, as oposições enfrentam a combinação: máquina partidária do PDS (e sua Prefeltura) e voto vinculado.
A esta altura do campeonato — inflação recrudescida, discussão entre empresários e governo sobre a política econômica, disputa pela sucessão presidencial — o que menos interessa ao projeto de abertura do presidente Figueiredo é anular as eleições por culpa das leis estabelecidas em nome da própria abertura. O importante, agora, é fazer com que o eleitor aprenda rapidamente as regras da vinculação e vote conscientemente. O formato da cédula eleitoral terá um efeito diámetro muito importante. Em torno do formato da cédula a segunda parte da propaganda eleitoral irá desenvolver-se. Não será difícil uma campanha que ensine o eleitor a não anular seu voto. Esta aprendizagem será com certeza o ponto de encontro entre os que, na oposição ou no governo, preferem o caminho da redemostrização do Pais.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 22/07/1982_