Inflação de 8 por cento é grave. Mas, mais grave ainda é o fato de que tudo contínua como se nada tivesse acontecido. As estatais continuam fazendo o que sempre fizeram. Sistematicamente estouram seus orçamentos e se financiam; ou aumentando as tarifas do serviço público ou contralindo novos empréstimos externos. A renda contínua se concentrando, o desemprego grassando e a desnacionalização das empresas progredindo. As riquezas minerais continuam sendo hipotecadas em favor de uma dívida externa que continua crescendo. E nada acontece. Pior ainda. Todos, sem exceção, continuam, pelo menos retoricamente, condenando a inflação. O presidente da República preocupa-se e o ministros se desculpam como podem. As oposições criticam, os empresários reclamam, os trabalhadores protestam. E nada acontece. Diante desta situação, de um País que unanimemente condena uma inflação que continua mais vícosa do que nunca, é de se perguntar: trata-se de condenação insincera ou de incompetência coletiva? Pols, apesar de tudo, a política econômica do regime não muda. Permanece a mesma anos a fio. Não muda. Sofre apenas adaptações circunstanciais menores. E como se o País estivesse anestesado. Ou melhor, é como se a política econômica tivesse anestesado o País.
A principal característica de nossa economia não é inflação alta, a dívida externa elevada, a renda concentrada ou o desenvolvimento regional desigual. A principal característica é a capacidade do modelo econômico, que vem sendo implantado, para enfrentar todos os fracassos, e mesmo assim não mudar. A política econômica permanece a mesma e se caracteriza pela sua imuni-
dade às consequências políticas e sociais negativas que acarreta para o Páis e para o próprio regime. O regime mantém uma política econômica que lhe traz sistematicamente problemas políticos e sociais. E como se dentro do regime existisse um fosso entre economia e política. Este fosso, a bem da verdade, não é de hoje. Vem de longe.
Na década de sessenta, por exemplo, Roberto Campos defendia a necessidade de um autoritarismo de transição, onde não haveria interferências políticas, sobretudo interferência popular, na implantação do modelo econômico. A imundade era garantida pelo autoritarismo. Não haveria porém necessidade de um autoritarismo permanente, porque o sucesso do modelo econômico em implantação asseguraria a continuidade do regime. Com a abertura política e o in-successo do modelo econômico, medido mensalmente para a imensa maioria dos brasileiros pelos índices de inflação, a imundade da política econômica está sendo protegida por outra estratégia política. Pelo controle das leis eleitorais, daí este vaivém de casulismos sem fim. O Insucesso dos economistas oficialais exige o malabarismo de seus juristas, de seus políticos, e a paciência preocupada de seus militares. A partir da é fácil concluir. A abertura política não se completa com eleições, mesmo eleições diretas para a Presidência. Ela só se concluí se estas mudanças a nível do político puderem interferir na política econômica. Do contrário, o Pals continuará anestesizado.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 04/07/1982_