Seja do governo ou da oposição, no Estado ou na sociedade civil, daqui pra frente quem se preocupar com a política cultural deste País vai ter que se posicionar diante do pensamento e ação de Aloislo Magalhães. Não tem saída. Poderá ser contra ou a favor. É secundário. Não poderá é ignorá-lo. Por motivos vários. O primeiro de todos é que Aloislo fez o que é raro o cidadão fazer, seja ele artista, intelectual ou político: juntou conceituação e ação. Sua concepção para a trajetória cultural brasileira não morreu como proposta. Virou ação. Virou instituição, programas, projetos e recursos. Mais ainda, virou discussão, debate, problema, erro e acerto, alegria e tristeza.

O que define justamente um personagem paradigmático não é sua capacidade de estar certo ou estar errado. Mas a sua capacidade de formular uma proposta nova consistente e abrangente para um problema social relevante. Desde o trio Mário de Andrade, Rodrigo Mello Franco e Gustavo Capanema que o País não assistia à inovação teórica e prática na política cultural do governo. Assistiu agora com Aloislo Magalhães.

Inventor é quem consegue escapar do debate pachorrento do presente e antecipar
o futuro. Não o futuro utópico, mas o futuro possível. Aloisio Magalhães era um programador — visual e depois cultural — um projetista, homem e profissional projetivo. Não se conflituava com o presente. Antecipava, moldava e inventava o futuro.

Sendo o futuro uma questão em aberto, Aloisio Magalhães complementou sua invenção cultural com sua intervenção política. Formulando e gerindo a política e as instituições culturais do governo. Tudo sem a preocupação comum a vários homens públicos — a preocupação de terminar. Paralele, se circunstancialmente cabia ao inventor começar, caberia à comunidade, à sociedade consolidar e terminar. Se não consolidassem e não terminassem é porque a invenção não era boa. O que não é mau. Apenas exige maior capacidade do inventor, um maior esforço em captar o Brasil.

O problema da cultura nacional é um problema permanente. Começa toda vez em que acaba. Com a morte, Inventor de futuros possíveis, tudo acaba. Começa. Vive.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 17/06/1982_