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Nunca o País assistiu a um debate tão limpo, correto, escorreito, educado e civilizado. Tudo quase perfeito, entre Sandra e Miro. O visual, os gestos, as corteslas, as frases, as intencões e proposições. Tudo tão bem comportado que a impressão que ficou que não era no Brasil. Era na Sulca. Sandra Cavalcanti abriu mão da personalidade contundente e afirmativa que é. Comportou-se com uma complacência de Rainha da Inglaterra, vestida com uma estonteante elegância de Lady Di. Não estava lá a Sandra que ia pessoalmente à frente dos caminhões convencer cara a cara pelo papo os favelados a se mudarem da Vila Kennedy. Como não estava lá a Sandra herdeira da incontinência verbal e da inteligência de Carlos Lacerda. Como também não compareceu ao debate o Miro Telzelira que o Rio conhece. Articulador com gingado de cárpor e patrão da máquina partidaria de Chagas Freitas. O Miro Telzelira que leva no papo toda a fauna carloca: sambistas, bichéiros, surfistas, funcionários, políticos, autoridades e o povo em geral. Comportou-se como um bem sucedido herdeiro de indóstrias paulistas. Com o charme discreto da burmesia modernizada.
dás. do que a Constituição nestes tempos vívidos. O sinal eletrônico foi temido como o diabo teme a cruz. Cada debatedor em seu canto estava ultra, hiperpreparado. Táticas estratégias, escaramuças, risos, gestos, espantos, tudo dava o ar de ter sido previsto e calculado. Sandra sutilmente baixando a bola para discutir o governo. Chagas Freitas. Miro sutilmente levando os temas para um comedido ataque ao governo federal. Miro sutilmente acentuando a eventual contradição entre passado ude
nista e o presente petebista de Sandra. Sandra sutilmente ressaltando a contradicção entre a convivência de Chagas com Brasilia e a pretensão oposicionista de Miro. Nunca se viu tanta sutileza assim. Não foi um debate de linhas. Foi um debate de entrelinhas. Acabou tudo igual. Difícil dizer quem foi quem.
Quem igualou tudo foi o medo. Os candidatos estavam com medo de errar, perder pontos e votos. A TV Globo com medo do debate lhe escapar ao controle. O governo com medo de ser crucificado verbalmente pelos oposicionistas. A oposição com medo do eventual radicalismo fechar a abertura. Os bolsões radicales, mas sinceros, temendo o revanchismo. Mas não pense o eleitor que isto tudo foi ruim. Não foi não. Foi ótimo. No debate promovido pela TV Globo não havia apenas medo parado no ar. Havia vontade de perder o medo. Vimos sobretudo que todos estão aprendendo a perder o medo. O medo de debater, de discutir, de ter e de confrontar idéias e ideais. O que o Pais precisa é justamente isto. Que a TV Globo é as outras cadelas promovam mais e mais debates. Só assim as pessoas e instituições vão se descontrair, ser mais naturais, e o debate vai ser mais Brasil. Não se quer um debate de sangue, é óbvio. Necessitamos apenas de um pouco mais de suor e lágrimas. E se possível algumas gargalhadas. Só assim o Pais perderá o medo do debate, e resprendera a fazer democracia. E preciso treinar.
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_Recife, 25/04/1982_