Padre deve ou não ser candidato em 82? Até ontem o governo se esforçava para que tal não ocorresse. E óbvio. A Igreja Católica caminha para ser a grande instituição esclarecedora, defensora e representativa das massas populares. Contrariando, aqui e ali, os eventuais interesses oficiais. A cada pronunciamento de João Paulo 2.º sobre os limites da atividade política do clero, autoridades governamentais se apressaram em dar uma interpretação ampla. Apesar de o Santo Padre nunca ter proibido a atividade política, expressando no entanto sua preocupação com a atividade político-partidária, porta-vozes, oficiais aqui da terra acabaram sempre por sugerir que, segundo João Paulo 2.º, lugar de padre é na Igreja. Paradoxalmente, hoje, a candidatura de padre Melo a governador de Pernambuco pelo PTB interessa sobremaneira ao governo.
Padre Melo é figura controvertida na cena pernambucana. Nos ídos pré-64, caracterizou-se juntamente com o padre Crespo como o anti-Julião. Disputava com as Ligas Camponesas de Julião, e com os sindicatos controlados pela esquerda, a influência no campo. Como todos, utilizava também uma linguagem radical. De radical de esquerda, sem ser. Depois de 64, controlando uma cooperativa na Zona da Mata, veio a comprar, com apoio oficial, duas usinas — Salgado e Mussurepe, Hoje, padre Melo desligou-se formalmente destas usinas.
nas, embora ainda seja sua eminência par-
da. Diz-se apenas pastor de almas.
Repetindo a mesma estratégia de 64, hoje, padre Melo pretende disputar com o PMDB e o PT o voto da oposição. Para tanto conta com a sigla do PTB, e com uma mensagem trabalhista. Nada mais conveniente, pois, para o governo. Quanto mais dividir os votos, maiores as chances do PDS.
Os obstáculos que, no entanto, padre Melo tem que enfrentar são pelo menos dois. Primeiro, obter a permissão da Igreja Católica para se candidatar. Permissão necessária em face do código canónico. A arquidiocese de Olinda e Recife já avisou que desde 62 é contra candidaturas de padres a postos executivos, como o foi ao desestimular a candidatura de Mansueto de Lavora vice-governador na chapa do PMDB. Segundo, conseguir se apresentar como candidato de oposição, o que será cada vez mais difícil, não somente pela estratégia para oficial do próprio PTB nacional, como pelo seu desempenho recente, que contou sempre com o apoio do governo. Se não conseguir convencer os eleitores de que é o oposição, padre Melo vai é tirar preciosos votos do PDS na boca da urna.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 18/04/1982_