Nem sempre o que é bom para o Sul é bom para o Nordeste. O PTB de Getúlio Vargas, por exemplo, por mais que tivesse sucesso no Sul, nunca o teve em Pernambuco. Pernambuco, altas, tem fama de ser um Estado ingrato para com os partidos dos trabalhadores que vêm do Sul. Por aqui, antes de 64, o trabalhador votava no Partido Comunista (onde estivesse), no Partido Socialista e até mesmo na UDN. Basta lembrar que a aliança de Cid Sampaio com os trabalhadores, indispensável para derrubar a oligarquia do FSD de Etelvino Lins, se concretizou basicamente através do PC e da famosa Frente do Recife. O PT corre agora o risco igual ao do PTB de Getúlio. É cedo ainda para qualquer previsão. Seu sucesso em Pernambuco é uma questão aberta para o futuro. Desde logo no entanto, podem se colocar alguns desafios que o PT precisa vencer.
O primeiro consiste no fato de que em Pernambuco o trabalhador politicamente ativo e consciente é sobretudo o trabalhador rural, o campones. A experiência urbana dos metalúrgicos em São Paulo tem que se transformar e se identificar com a experiência rural dos campones da Zona da Mata. O que teoricamente é fácil, mas na prática pode não ser. As associações representativas dos campones, como a Fetape, por exemplo, não estão com o PT. No presente, o PT disputa esta representatividade, criando outras organizações rurales. Resta saber se a estima novas associações conseguira a médio prazo alcançar uma maior representatividade do que as já existentes.
O segundo desafio consiste no fato de Per-
nambuco ter uma forte experiência histórica de lideranças realmente populares. Quer antes de 64, com Miguel Arraes e Pelópidas da Silveira. Quer depois de 64, com Marcos Freire e Jarbas Vasconcelos. Desta feita, a relivindicação que faz o PT, no sentido de vir a congregar as lideranças realmente populares da Nação, esbarra com a experiência pernambucana, onde os líderes populares não estão no PT. A evidência desta dificuldade é o fato de o PT não ter conseguido forjar até hoje por aqui uma liderança popular de âmbito pelo menos estatal.
Finalmente, o terceiro desafio é o fato de a Igreja não estar tendendo a apolar o PT. Em Pernambuco, sobretudo depois de 64, a Igreja assumiu de vez a opção pelos pobres e é uma idéραca real na classe trabalhadora. E a opção da Igreja caminha prioritariamente para o PMDB. Perde assim o PT um de seus principais apolos. Com o risco grave de a disputa eleitoral entre o PMDB e o PT, uma disputa partidária formal, criar ressentimentos institucionais e muitas derrotas irreparáveis.
O PT em Pernambuco poderá enfrentar com sucesso estes desafios? No fundo, parte do desafio maior, o de alcançar uma estrutura nacionalmente abrangente e representativa de todos os trabalhadores?
(Joaquim Falcão)
_11/02/1982_