– Com a abertura lenta, gradual e segura, o governo tinha em mente dois objetivos. Primeiro, obviamente, manter o poder. O segundo, reformá-lo. Quer dizer, a abertura refletia uma certa concepção de poder: da de que para mantê-lo a longo prazo é preciso mudá-lo. Quer dizer, modernizá-lo. Melhor dizendo ainda. A História ensina que as ditaduras e os regimes autoritários têm a longo prazo grande chance de encontrar destino trágico. O risco de explodir, Depois de um certo período, a elitização do poder é no mínimo autofágica. Cristaliza-se um isolamento, um formalismo e um conservadorismo que torna o regime incapaz de controlar com eficiência a realidade social, econômica e política do Pals. A abertura era a tentativa de modernização do regime. Uma antevisão da História que via nos exemplos do xá do Irã e de Somoza da Nicarágua os riscos a evitar. A abertura não tera apenas um meio de amortecer as oposições e a crescente insatisfação social. O próprio regime dela necessitava, se pretendia manter-se a longo prazo no poder. Nunca foi uma dádiva.
Quando a abertura começou, o regime se defrontava com alguns problemas concretos que, pela sua persistência, evidenciavam que pouco a pouco o governo perdia o controle da situação. Por exemplo? A crescente estatização da economia. Este efeito, o regime, que sempre defendeu um capitalismo liberal, nunca pretendeu. E no entanto, por mais que lutasse contra, nunca conseguira controlar a tendência estatizante. A estatização apresentava duas consequências graves. Primeiro, alimentava grandemente a infância. Segundo, alimentava grandemente a burocratização do cotidiano de todos os cidadãos. Não foi a oposição quem levantou a bandeira contra a estatização da economia. Nem foi a oposição quem levantou bandeira contra as mordomias. Foram justamente
mente grupos de dentro do próprio regime. Ora, como é que se pode combater a estatuização e a burocratização com um regime fechado, onde todos estão submetidos ao Estado e ao burocrata, tanto o empresário quanto o consumidor dos serviços públicos?
A situação se apresentava mais grave, porque a crescente ineficiência do setor estatal de nossa economia não somente contrariava a cartilha de princípios do monetarismo como convertera-se no principal fator alimentador da inflação. Os excessos dos gastos públicos e a ineficácia na aplicação dos recursos públicos alimentavam, e alimentam ainda, a inflação. Como se pode então controlar este problema numa sociedade fechada? É o próprio ministro do Planejamento que todo o dia nos diz das dificuldades quase que intransponíveis para controlar as estatais. É o próprio Ministério da Desburocratização que todos os dias nos diz como é impossível desburocratizar o burocrata.
A abertura política, o processo eleitoral onde havia o risco de o PDS ter que compor com a oposição, era um instrumento importante para o controle da estatização e da burocratização. O tecnocrata e o burocrata teriam que prestar contas de seus atos. E se continuassem ineficientes, ou mudavam de política, ou mesmo seriam substituídos democraticamente no poder. Com o “pacote” eleitoral, conserva-se o mesmo processo de sucessão presidencial, os mesmos líderes políticos e a mesma política econômica. O regime volta a ter os mesmos problemas. Como manter-se sem modernizar-se, como modernizar-se sem abrir-se democraticamente?
(Joaquim Falcão)
_Recife, 29/11/1981_