Em 82, a Nação escolherá seus novos líderes: Montoro, Arraes, Lula, Marcos Freire, Jânio, Aureliano, Setúbal, Simon, Sandra, Mariz, Brizola, Saturnino etc. O que distingue um do outro não é somente o partido a que pertencem. A ideologia que pregam. Ou a candidatura que postulam. A geração a que pertencem é também fator de distinção. Esta questão — a geração dos futuros líderes — será cada dia mais crucial. Menos pela vontade dos políticos. Mais pelas características do momento histórico que vivemos.
Todo regime autoritário tem forte tendência autofágica. A inexistência de regras nítidas de renovação do poder e a índole naturalmente conservadora do próprio poder acabam por reduzir seus líderes a um punhado de privilegiados. Vejam o que ocorreu na área econômica. Nestes 17 anos, o regime não forjou mais do que cinco ou seis mínistros (se competentes ou não, não vem ao caso agora) que se revezam, qual ciranda, nos mesmos cargos. Em face do isolamento do regime, que progressivamente o afasta da sociedade, os líderes que forja são líderes do regime. Mas dificilmente pode-se afirmar que sejam líderes da Nação. Assim, a abertura significa para o regime a possibilidade de escapar à sua tendência autofágica. Tanto ampliando o número de seus líderes, como, sobretudo, testando-se os escolhidos por gestões palacianas têm respaldo social para serem líderes da Nação. Trata-se de testar a sobrevivência. A sobrevivência, enfim.
Por outro lado, o regime autoritário, por cassação, repressão e controle, dificilmente permite que surjam na oposição líderes representantes de toda a pluralidade social. A intimidação autoritária acaba por selecionar e concentrar as lideranças de opo-
sição. Que passam a ser muito mais líderes contra o regime do que representantes das diversas correntes sociais em suas diferenças. Assim, a abertura é também o momento em que estes líderes testam a sua força política. Onde as divergências tenderão a obscurecer os pontos de convergências. Onde sobretudo novos líderes oposicionistas se apresentarão.
É dentro deste processo de renovação de lideranças, de governo e de oposição, que a questão de geração se coloca. Hoje três gerações disputam 82: a geração de antes de 64, a geração de durante 64 e a geração da abertura. Não se trata de um julgamento de gerações. Trata-se apenas de reconhecer que a abertura, como questão aberta ao futuro, pode seguir caminhos diversos. E que homens com experiências diversas se candidatam. E que os homens, ainda que possam se desunir nas ideologias, nas posturas e nos partidos, podem se encontrar na identidade das gerações comuns.
Não seria, portanto, de espantar que em Pernambuco, por exemplo, Moura Cavalcanti preferisse ter como concorrente ao governo do Estado, não Marcos Freire, mas Miguel Arraes, E que Gustavo Krause, ao contrário, prefira Freire. Ou que Arraes tenha maior possibilidade de levar o PMDB a uma aliança com Cid Sampalo, do que o tenha Jarbas Vasconcelos. Não se trata de excluir de 82 esta ou aquela geração. Trata-se apenas de reconhecer o peso do fator geração na escolha dos líderes. Mais ainda, de saber que em 82 deveremos definir a forma de convivência entre as gerações.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 05/11/1981_