Não são poucas as semelhanças entre Jânio Quadros e Cid Sampaio no contexto político atual. Se não, vejamos. No passado, o Rio Grande do Sui era o Estado onde o problema de segurança nacional se colocava de forma mais aguda. Havia o risco da revolução armada vinda das fronteiras. Agora, os Estados-chave são São Paulo e Pernambuco. É que, na medida em que a segurança nacional volta-se para a questão trabalhista, são estes os dois Estados que podem servir de palco para movimentos operários contestadores. São Paulo com o trabalhador urbano. Pernambuco com o trabalhador rural.
Coincidência ou não, nestes dois Estados a situação do PDS é desoladora. Dificilmente conseguirá eleger os sucessores de Malufe Maciel. E o que indicam as pesquisas de opinião. Descartada a hipótese do atual governo se manter no poder, a estratégia do regime parece se voltar para embaralhar o jogo das oposições. Tentar amortecer o caminho de Montoro e Marcos Freire. É como se o governo, tendo perdido a ilusão de gerir um PDS forte, se voltasse para a tarefa de estimular, ou pelo menos assistir “docemente constrangido”, à confusão nas oposições. ‘Al é que o destino de Jânio e de Cid se cruzam.
Até há bem pouco tempo, dificilmente se poderia dizer que Cid e Jânio eram políticos de oposição ao governo. Hoje, ambos se esforçam em se apresentar como tal. Procu-
raram partidos de oposição. Ensaiam discursos oposicionistas. Não há que se duvidar da sinceridade ou não desses discursos. Em política, o que menos conta são as boas ou más intencões. O que realmente conta são as consequências político-eleitorais que os atos e discursos podem trazer. O caso de Jânio, vocês de São Paulo bem conhecem. O caso de Cld Sampalo é que cumpre analisar. Cld foi o político que botou abaixo a oligarquía do pêssedismo em Pernambuco. Bom de palangue e com bom respaldo nas hostes empresarias e de classe média. Foi candidato a senador pela Arena e teve cerca de 300 mil votos. Saindo da Arena-PDS e entrando para o PP, tanto pode levar o PP a compor com o PDS de Moura Cavalcanti, quanto pode querer compor com o PMDB de Marcos Freire, numa união de oposições. Também pode querer ser candidato a governador em faixa própria, tentando retirar de Marcos Freire os votos da classe média. Se assim for, o regime estaria tranquilo com Cld governador em Pernambuco. Por enquanto, no entanto, o pernambucano aguarda para saber o que Cld vai fazer com seu ativo político: se vai se integrar numa frente de oposições, dando sequência ao seu roteiro histórico, ou se vai colocar no jogo eleitoral pernambucano, carta nova.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 15/10/1981_