O jogo está quase feito. De um lado senhores de engenho e usineiros pretendem do governo aumento de 65% no preço da cana. De outro, 43 sindicatos de trabalhadores rurais defendem um aumento de produtividade de 12% e medidas para que os plantadores cumpram as leis de proteção ao trabalhador. Ao contrário do que reza a cartilha do capitalismo, a greve ou o acordo não vai depender nem de uns, nem de outros. Neste capitalismo selvagem e de crioulo doido em que vivemos, nem os preços são determinados pelo jogo da oferta e procura nos mercados, nem os salários são determinados pela negociação das partes. Tudo passa antes pelo gabinete do burocrata estatal. Greve ou acordo vai depender do humor do controlador do preço e do delegado em plantão no dia.
O mercado do plantador não é o consumidor nacional ou internacional. É o gabinete do Instituto do Açúcar e do Alcool. É o governo. Ao plantador cabe suportar os custos da produção. Ao governo, determinar os preços da cana. Por mais que o governo se esforce em determinar o preço de acordo com o mercado futuro, dificilmente consegue. Por dois motivos. Primeiro porque a própria cartilha capitalista desconfia de um só agente determinando preços. A centralização da decisão aumenta o risco da in-competência. Quando acerta a favor do consumidor, dificilmente acerta em relação ao produtor. Segundo, porque a decisão do preço traz sempre consequências políticas para legitimidade do regime. No cálculo do governo não entra apenas o fator econômico. Entra também o político. Quando o mercado oscila em favor do consumidor ou do produtor, ninguém perde voto. Quando o governo erra contra um ou outro, arrisca perder
votos dos dois, plantadores e trabalhadores. Mais ainda: nesta já declarada briga pela sucessão presidencial, o balxo preço da cana do Nordeste pode favorecer os candidatos do Sul do Pais. O sucesso ou Insucesso de ministros e governadores conta para as alianças que se formam em torno das candidaturas já nos corredores.
No outro lado da medalha, fazer com que os plantadores cumpram as leis não depende dos trabalhadores. Depende do fiscal estatal. Já no ano passado os trabalhadores pediram que o Instituto de Pesos e Medidas fiscalizasse as balanças que pesam a cana colhida. Muito pouco foi feito. Agora, querem que a Delegacia do Trabalho fiscalize o cumprimento das leis trabalhistas na contratação do bóia-fría e do trabalhador clandestino. Aquele é o trabalhador que fugiu da seca do agreste e inundou a Zona da Mata. Este é o trabalhador de engenho, sem emprego e sem moradia, que está afavelando as pequenas cidades da Zona da Mata. Um e outro, em seu desespero pela sobrevivência, abrem mão de seus direitos trabalhistas e previdenciários, prejudicando-se e aos demais colegas.
Neste capitallismo sem capital, sem jogo livre de mercado, sem livre negociação, neste regime sem voto popular, tudo fica imprevisível. Exceto o progressivo cansaço do governo por centralizar tarefas “impossíveis de serem bem cumpridas, e a progressiva frustração social por não se poder participar das decisões nacionalas.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 24/09/1981_