O governador Marco Maclel compareceu, com alguns de seus secretários, à missa comemorativa do cinquentenário de sacerdócio do arcebispo de Olinda e Recife, d. Hélder Câmara. Foram muito bem recebidos. Três dias depois, o governador em exercício, Roberto Magalhães, autorizou cerca de duzentos policiais armados a removerem, mesmo pela força, trezentas famílias que invadiram um conjunto habitacional, defendidas pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. Mais do que nunca, a tranquilidade política de Pernambuco depende das relações entre o governo do Estado e a Igreja Católica. A decisão de Roberto Magalhães reabre a possibilidade de intranquilidade e lança luzes sobre o que pode acontecer com a abertura aqui pelo Nordeste.
Invadir terrenos e conjuntos desocupados não é fato novo. Novo é reprimir invasão com tal aparato. Nestes últimos quatro anos, ocorreram mais de setenta invasões no Grande Recife. A maioria delas em terrenos desocupados, de titulação duvidosa, ou em prédios abandonados. Cerca de 25% da população do Grande Recife mora em mocambos nosterrenos invadidos. As causasdestas invasões, já as sabemos de cor: a falência do BNH em financiar quem precisa de casa, a migração do camponês para a cidade, fugindo da seca à procura de trabalho, o salário que o desempregado não tem para pagar o aluguel do quarto etc. Nestes últimos anos, o recífense acostumou-se a ver os invasores, a Comissão de Justiça e Paz, a Secretária de Habitação e os proprietários, procurando soluções para conflitos quase semanas.
Na grande maioria, as soluções foram negociadas. Negociação tensa e difícil, mas quase sempre pacífica. A Igreja negocia porque sua opção pelos pobres é também uma opção pela não-violência. O governo do Estado negocia porque conhece as deficiências dos planos do BNH e reconhece que o invasor de hoje é o eleitor de amanhã. O proprietário aceita a solução porque, em geral, é bom negócio.
Reprimir invasão com aparato policial não resolve o problema da moradia da população. Não conserta os planos da Cohab e do BNH. Não traz o Pals para mais próximo do estado de Direito. Não conquista votos para o PDS. Mesmo assim, tem consequências importantes. Reacende a desconfiança entre o povo, o policial e o militar. Substitui o exercício da negociação pela ameaça da força. Opta pela repressão em vez da descompressão.
Daqui pra frente, uma questão vai se colocar em Pernambuco: a quem interessa tensionar o Estado? Evidentemente que não interessa à oposição responsável. Pesquisas eleitorais de confiança do próprio regime asseguram a boa posição de Marcos Freire para as eleições de 82. A quem interessa então? Tudo indica que aos setores conservadores que disputam com Marco Maciel o controle do Estado. E que não querem eleições, mas que precisam de um grave conflito social para poderem se justificar, nacional e internacionalmente.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 29/08/1981_