No discurso de transmissão do cargo de ministro da Justiça ao deputado Abi Ackel, o general Golberi lamentou que Petrônio Portela desaparecesse quando se aproximava o momento do “ato político perfeito”, Debaixo desta expressão — “ato político perfeito” — expõe-se parcela importante de seu projeto para a Revolução de 1964 e para a Nação. O ciclo incluído em 64 terminaria em 84. Vinte anos; o espaço de uma geração. O Pais deveria contar com modernas instituições capitalistas-democráticas. Com uma nova geração de líderes. O compromisso geopolítico com a defesa do ocidente já estaria consolidado. A segurança nacional assegurada. Os radicales contidos. E a racionalidade voltaria a gerir a coisa pública. A abertura e o controle da inflação seriam os derradeiros momentos do “ato político perfeito”.
De tal visão e estratégia, discordaram muitos brasileiros representados pelas oposições. Mais ainda, discordaram grupos do próprio regime. Estes, preocupados sobretudo em manter o poder, O resto viria por acréscimo. Grupos do “aquí e agora”. Que subordinam a consolidação das instituições nacionalas aos casulismos necessários à manutenção do poder. As erises internas do regime são também reflexos da disputa entre os partidários do “ato político perfeito” e os do “aquí e agora”. Inclusive estas últimas: a da reforma eleitoral e a da Previdência.
Vejam a reforma eleitoral. O governo estava dividido. Por um lado se comprometera a dotar o Pals de um sistema partidário e de
instituições eleitorais democráticas de longa duração. Por outro desconfiava que sem “casuísmos”, que inclusive se chocam com o compromisso democrático, o PDS se arrisca a perder o poder. Daí as hesitações e os discursos contraditórios. Tentava-se conciliar o “ato político perfeito” com o “aquí e agora”.
Vejam a questão da Previdência. Aumentar a aliquota resolve aqui e agora um problema de caixa. Mas mantém o estado de coisas que o Pals conhece. E que leva o descrédito nacional à Previdência Social. Mantém devedores sem pagar, administração ineficiente, política de assistência médica inadequada etc. Não se implanta a racionalidade na gestão da coisa pública convalidando tal estado de coisas. Ainda por cima, este aumento rouba votos do PDS. Quer dizer, exige uma dose maior de casulismos eleitorais. Dificulta e adia o “atopolítico perfeito”.
O projeto do general Golberl, Independente de se estar ou não de acordo com ele, tinha função importante. Assegurava, a governo e sociedade, um mínimo de previsibilidade. O empresário não investe se não pode prever o retorno de seu capital. A oposição não pode ser oposição se não pode prever as regras do jogo. O governo não pode ser governo se não tem seu claro projeto nacional. Para que a Nação concorde ou discorde. Com a saída do general Golberl tudo fica imprevisível.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 11/08/1981_